31/05/2009

Nota


Danou-se!...
Foi-se no mundo sem qualquer dólar, real ou peseta.
Pôs duas mudas e par de calçados em velha maleta. Deixou um vazio
ornado em nota de caderneta:
.................................................."Fui, Francesca!..."


30/05/2009

Re(s)postando...


— Coitada dela! Falava-lhe a voz da in-consciência.

Ela sentia-se vazia: sem cor, sem parede, sem teto, sem chão.

Faltava-lhe o ar comprimido... élan vital. Faltavam-lhe o pôr-do-sol, a primavera e a voracidade matinal. Faltavam-lhe o néctar da tarde e o solo frugal. Todas essas coisas in-sensatas que adoçam o peito de saudade...

— Coitada dela! Coitada dela!... O canto tenebroso da insistência insistia-lhe aos ouvidos.

Faltava-lhe o sexto sentido: o bruma da paixão, o pêndulo do esquecimento. Vale de larvas e flocos de prata se desdobrando em flor de cimento.

— Coitada dela, coitada dela...

Exposição fria, cruel, nua. Paisagem viva-morta n’alguma in-existente aquarela...

— Coitada dela!...



Texto postado em 13/10/07.

27/05/2009

banho-maria


Não mais poetiza...
não mais colheita de estrelas na tarde
ou flores noturnas envoltas em jardins de bermuda
não mais sol, náufrago, caravela ou chuva
apenas silêncio e solidão a vaporar-lhe o peito
à banho-maria...



26/05/2009

Procura-se...

Notícia de Jornal
no Maria Clara: simplesmente poesia



Procura-se, urgentemente,

uma imagem súbita
algo que possa ser notícia de jornal.

Uma fada fujona
aquela que se perdeu
nos atoleiros do Pantanal...



23/05/2009

élan

ou, melancólica...


O fio toma forma...
a canção torna-se menor: mel e cólica
o élan lírico adorna, em grau maior, o novel ancestral
........dos meus versos.



22/05/2009

Contagem


Se me faltares,
direi sem qualquer dúvida,
sombra ou roupagem:
"a saudade me desapruma, me abate
confunde-me as brumas, quando
em contagem"...



21/05/2009

Sandice


Enquanto você sonha
me devora em sua sandice calado
eu ponho meus óculos-de-sombra
e me afogo na superfície
do aquário...



16/05/2009

Manejo


Seu beijo...
manejo nas lembranças
mas não me ateio às páginas,
me apraz a circunstância
das comichões...


Solavancos

Diálogo com Para Renata, de Romério Rômulo.


Ninguém pode afirmar,
com farta verossimilhança,
os motivos que trafegam
nuvens, sonhos, labirintos
as mil tranças-de-criança.


Ninguém pode atestar,
com máxima confiança,
se a palavra que se lança
apresenta-se legítima
ou se, à deriva, é lívida
......................esperança.


Muitos são os mistérios
poucas e frágeis as verdades:

― há sonho na realidade?
Nada sei...


.........................quando os solavancos da palavra
.........................vão redimir meu corpo?...




14/05/2009

Insônia


Sinto saudade do cheiro
o sabor-de-hortelã
a pele, os dedos
uma
infinidade de coisas sen-
tidas, quando chega a noite
me agita, me reviram
nos travesseiros
mal percebo...
.................é manhã.



12/05/2009

Exagero


A água está morna...
seu estado é per fei ta mente normal
a-normal é essa vontade que me adoça
me faz entrega,
........................colossal


..........................................................bem me quer, mal me quer...



11/05/2009

Sinopse


Escassez e fortuna alíneas
Leite a ponto de mel no escuso broquel de cascata.

Meia hora na estrada...
..................................e a sinopse tornou-se líquida.



Mais acerca de escassez e fortuna...
Uma página da história



07/05/2009

fi(a)ção

O mal não é criado por nós nem pelos outros,
nasce do tecido que fiamos entre nós
e que nos sufoca.

Merleau-Ponty


Estou muda porque nutrindo silêncios...
Por que doem: laringe e vísceras,
os acontecimentos.

Estou decifrando códigos.
Tentando compreender o que é imutável e perecível.
O que é móvel.

O que abre caminhos caminhando
O que comanda a natureza civil-humana
O que renova, de ar, os pulmões
O que refrigera passaredo e ebulições.

Estou em silêncio!...

Para não mudar segundo o sabor dos ventos
Para ser coerente com alguma coisa ou idéia
que valha a pena: o sonho.

Para não ser um peso nem cão em abandono
Para conter foros de verdade, não estrondos.

Por essas e outras coisas...
cortei-me a língua!


Hercília Fernandes, in Decifrando códigos.
09/08/08

05/05/2009

A-colher


Amor, inteira, me acolhe...
me aconchega com ais de ternura
traz-me os presságios das violetas
e azaléias noturnas
me faz mais forte mesmo quando
amável ou névoa lívida avulsa


Semeia. Me move.
Que eu entranho em afável
e indelével gole:

..................................eu te amo


04/05/2009

sem telha, sem til


Parece brincadeira...
qualquer coisa sem o eira nem a beira
O fato é que ando enjoada: ― sem telha!
A ponto de parir sem til canhao...
intrépidas letras!


03/05/2009

voos


feitiços, pouco a pouco, se desfazem
poções alcançam graus desejáveis
ao longe,
vassouras arriscam voos...



pedágio


Não há pedras...

.......................Há nau frágil

............................................lâmina, pedágio

.....................................................................cinza estrada...


"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)