31/12/2010

luzes


...

brindemos
as sombras
as dúvidas
que instigam
o ser

se soubéssemos
todas as coisas
haveria luzes

:

‘quefazer’?



*Escrito a partir da leitura do poema “Dúvidas”, de Mirze Souza.
*Imagem lozalizada aqui.

30/12/2010

dos abraços





“Ela tinha um rio de seda no abraço”
(Lau Siqueira)

“Ele, o oceano em suas mãos”
(Hercília Fernandes)



*Arte localizada aqui.

27/12/2010

cheias




queria não pensar em você
montar acampamento em seu corpo

viveríamos sem terra, sem pressa,
sem adornos

:

unhas cheias de chãos



*Imagem localizada aqui.

23/12/2010

do que falo


falam de natal
do caos das vitrines
das prendas das crendices
de humanização

falo de mim
de você
de você em mim

das luas que não demos por conta...



*Imagem localizada no Google.

e se?...

e se falasse em teu nome,
ser.tão ‘serrado’ horizonte?...




ela está para ele
assim como ele para ela
não tarda serão uno
sertãocerrado

e os beijos serão possíveis
os pecados puros como salmos
suas línguas fundirão
céu inferno




*Texto escrito em 2009, localizado entre rascunhos em fevereiro de 2010.
* Foto sem indicação de autoria.

21/12/2010

fanatismo

"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio & fim!..."

Florbela Espanca
In Fanatismo, fragmento de soneto.




cresce o nó
na garganta

o silêncio
o grito

flor bela me espanca

:

(e)feito
....dominó





"Eu já te falei de tudo, mas tudo isso é pouco
diante do que sinto..."

Raimundo Fagner
in Fanatismo, canção.


20/12/2010

um a um

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
depois no teu ouvido.

Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.

Cecília Meireles in fragmento de Canção
(Viagem, 1939)



saudade da época em que os rabiscos,
sendo rabiscos, caminhavam um a um
ao precipício

a palavra ia... deixava morar o sentido
sua indelével figuração...



*Imagem disponível aqui.

19/12/2010

à óleo





sobre meu cavalo alado
busco o brilho das estrelas
a sensação primeira do último olhar

voo em direção aos pássaros
contemplo caravelas e náufragos
desvio do que me faz recuar

são tantas noites sem luar...
dias, cem olhos, manhãs, tardes a vagar

eu já não sei se posso...
se à óleo aquarela saberei [te] pintar

pois há mãos em meus sonhos
e elas desenham vidas análogas,

sem linhas paralelas...




*O poema visual de Fouad Talal (Gestalt II) contribuiu para elaboração do último terceto da canção.
*Imagem sem indicação de autoria, via Google.

18/12/2010

prosa quando arboriza é poesia



*
*
*

um broto de idéia nasceu ali entre a axila e o seio esquerdo
aquele corpo branco arborizou-se sem alvoroço
arvoreou-se!

as sombras vultuosamente estenderam-se pelas calçadas
adornaram pedras
rabiscaram desenhos minerais

o corpo destravou-se da pele-casca
fez crescer uma dúvida acima das sombras
incerta, nem curvilínea, nem mesmo reta
a dúvida se alojou em um galho na altura do umbigo
ali ficara
como coisa irrigada
amparada por uma colônia de microseres
dispostos a decompor todas as certezas
uma a uma / dia a dia

em diálogos íntimos com o vento
a descortinar um balé cromático
as folhas dançaram em queda enigmática
resistiram como se pássaros fossem e nesse adejar
sussurraram poesias sobre a transitoriedade das coisas

e quando tudo virou
galhos folhas seiva síntese

nas costas
por toda ela
nasceram flores amarelas
a tergiversar verões enamorados por primaveras

sem que ninguém se desse conta

a não ser os encantados e aqueles descontados que ninguém conta
aquilo que um dia foi idéia semente
que brotou
que arborizou-se
infloresceu
virou fruta
ganhou luz singular
a cor vermelha:

deram-lhe o nome abreviado de prosa
a mais pro-saborosa prosa





*
*
*

Fernando,


apreciei tanto, tanto, a sua "Prosa quando arboriza é poesia"
que a trouxe, parafraseando Marisa Monte, ao meu
"infinito particular".

Passei horas procurando uma imagem que ilustrasse um pouco
das atmosferas poéticas existentes em sua prosa
que é, simultaneamente, poesia. Entretanto, acabei optando por esta que,
embora não ilustre denotativamente a poética das cores
existente no texto, associa-se aos muitos sentidos que se pode
obter ao deixar-se enveredar pelas imagens.

Poesia - para mim -, é deleite, onirismo, sugestão...
E a lua, quando cheia, é, toda ela, poesia, assim como é a sua prosa.
Sonho.

Parabéns por tão bela criação. Ela veio morar em mim.

Abraço caloroso,
Hercília.



*Imagem sem indicação de autora, disponível no Google.

15/12/2010

das coisas dispersas [no mar]

Tudo que é sólido desmancha no ar,
tudo que é sagrado é profano,
e os homens finalmente são levados a enfrentar
[...] as verdadeiras condições de suas vidas,
e suas relações com os seus companheiros.

(Marx apud Berman, 1998)





por sonhar demais

foi que grafei teu nome
na areia

nosso amor é livre...

se não me ateias
é porque mares
me fazem
ora medusa, ora sereia

06/12/2010

(des)encontro



a coisa era tão aperreada...
[ você vinha, eu ia...]
até em sonho nossos olhos
não conseguem se alinhar
- quê dizer do resto?

a realidade turva-nos,
mas o amor – dizem - é cego!...


04/12/2010

encosta



talvez eu seja aquela
moça-personagem que perde
horas seguindo mesma trilha
seja gaivota e prefira encosta
a render marinha
talvez eu não tenha jeito
nem venha a tê-lo




27/11/2010

estados



não tendas a decifrar-me,
amado meu

hoje estou chuva
: amanhã, saberá Deus?

nuvem muda...

22/11/2010

rósea como branca face amada



Ela disse:
estou de férias em casa
embora na verdade estejamos no mar
então eu a peguei olhando do espelho
e a forcei a concordar,
dizendo:
você deve ser a sereia
que levou Netuno para um passeio
Mas ela sorriu para mim tão tristemente
que minha raiva passou imediatamente.

fragmento de "A Whiter Shade Of Pale",
interpretação de Procol Harum.
 



O tempo parece paradoxal...
mas sabe também amigo, assim sinta-o.
O destino não comanda o pertencimento.
Há algo mais surreal, fantasmagórico,
posto estranhamento.

Entenda: ela é uma das virgens
escolhida para guardar o templo.
Manter acesa a chama dos sonhos
com a palidez dos sentimentos.

Maktub, assim estava escrito!...

Há enorme beleza no gesto
Talvez a duas ou três décadas
vocês possam bailar essa canção
O fandango que as mãos tonta-
mente aplaudiram pelo salão
Então verá sua face empalidecer
tornar-se ainda mais translúcida.

Certamente, você se inquietará
Atenderá aos cantos das sereias
no curso das marés em que faz
brilhar rios de arrecifes.
Porém, à Sherazade, ela bordará
fios d’ouro para que a narrativa
jamais o desmotive.

Assim está escrito: não crê?
A chama permanecerá acesa.
E dar-se-á, enfim, o mergulho
às águas que, translúcidas,
afugentarão o oceano.

Sinta: a cama encontra-se posta.
E ela é rósea como branca a face
de sua amada.




*Arte: Estudo de Mulher (Rodolfo Amoedo).
Disponível aqui.

20/11/2010

feito rio


 Açúde Itans (Caicó-RN)
Foto disponível no Balaio Porreta

há tanta saudade
- dentro de mim –
sou capaz de fazer
sangrar o Itans
tamanha a escassez
dos dias das noites
que se alonga alonga
feito rio


"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)