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02/04/2011

anatomia do etéreo



[ não sei o que fiz
ou deixei de fazer... ]

mundo em desfronteira
teia de territórios
tudo soa familiar
confusamente transitório
e fumaça, seca, faz chover

anatomia do etéreo
fragmento, curvatura,
mal dito remédio
no/do beijo que sara
abre sutura
e, amnésia, faz mover

percebo agora
não-eu
não-você
uma soma de não-lugares
que nem a mais suntuosa cidade
a mais trágica velocidade
nos traz sentido
leva-nos, em nós, a nos pertencer



*Arte: Fada (2007), localizada aqui.

30/05/2009

Re(s)postando...


— Coitada dela! Falava-lhe a voz da in-consciência.

Ela sentia-se vazia: sem cor, sem parede, sem teto, sem chão.

Faltava-lhe o ar comprimido... élan vital. Faltavam-lhe o pôr-do-sol, a primavera e a voracidade matinal. Faltavam-lhe o néctar da tarde e o solo frugal. Todas essas coisas in-sensatas que adoçam o peito de saudade...

— Coitada dela! Coitada dela!... O canto tenebroso da insistência insistia-lhe aos ouvidos.

Faltava-lhe o sexto sentido: o bruma da paixão, o pêndulo do esquecimento. Vale de larvas e flocos de prata se desdobrando em flor de cimento.

— Coitada dela, coitada dela...

Exposição fria, cruel, nua. Paisagem viva-morta n’alguma in-existente aquarela...

— Coitada dela!...



Texto postado em 13/10/07.

14/05/2009

Insônia


Sinto saudade do cheiro
o sabor-de-hortelã
a pele, os dedos
uma
infinidade de coisas sen-
tidas, quando chega a noite
me agita, me reviram
nos travesseiros
mal percebo...
.................é manhã.



07/05/2009

fi(a)ção

O mal não é criado por nós nem pelos outros,
nasce do tecido que fiamos entre nós
e que nos sufoca.

Merleau-Ponty


Estou muda porque nutrindo silêncios...
Por que doem: laringe e vísceras,
os acontecimentos.

Estou decifrando códigos.
Tentando compreender o que é imutável e perecível.
O que é móvel.

O que abre caminhos caminhando
O que comanda a natureza civil-humana
O que renova, de ar, os pulmões
O que refrigera passaredo e ebulições.

Estou em silêncio!...

Para não mudar segundo o sabor dos ventos
Para ser coerente com alguma coisa ou idéia
que valha a pena: o sonho.

Para não ser um peso nem cão em abandono
Para conter foros de verdade, não estrondos.

Por essas e outras coisas...
cortei-me a língua!


Hercília Fernandes, in Decifrando códigos.
09/08/08

06/04/2009

Inutilmente...


os hóspedes
indesejáveis, pouco a pouco,
abandonam-me os ares
e o corpo imperfeito debate,
debalde, os apelos
da carne...



08/03/2009

Renunciação


Vislumbro dois navios:
um navio sobre um oceano sem direção
um navio sob águas turvas e profundas
onde, acima, levitam plumas
em agitação.

Vislumbro, debalde, a âncora
o porto, o cais... e abraço
a renunciação.


Imagem disponível no Google Imagens.


"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)