Poesia em "O cordeiro pressente o lobo"


Foto de O cordeiro pressente o lobo: acervo de João Werner

Há acontecimentos que revigoram nossos espíritos; trazem luzes, tons, novos entusiasmos, viços.

Assim se deu com o conhecimento de que o poema Cascata, postado em setembro de 2008, conjuntamente à obra Na beira do rio, integraria a exposição do artista plástico paranaense João Werner.

João Werner, graduado em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina de São Paulo e Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, contém rica trajetória artística. Em sua galeria acumula várias premiações e participações, individuais e coletivas, em exposições nacionais e internacionais.

Sua exposição atual, “O cordeiro pressente o lobo”, teve início neste último dia 06 e se estenderá até 06 de dezembro de 2009, na Vila Cultural Cemitério de Automóveis, em Londrina-PR.

Em O cordeiro pressente o lobo, João Werner apresenta treze de suas gravuras digitais, e, recorrendo a uma crítica do novo livro de José Saramago "Caim", relembra que, assim como na literatura, as artes visuais não devem conter “a intenção de ser uma casa de ópio ou de retratar um mundo de sonho” (LEMES, in: Folha de Londrina, 05 de nov. 2009).

Assim, o artista desenvolve temas ligados à morte e à automutilação dos indivíduos, ao suicídio, ao incesto, ao uso de drogas e outros tabus considerados desagregadores; onde, segundo pontua o jornalista Francismar Lemes, do jornal Folha de Londrina, atribui certa dose de humor aos assuntos considerados anomias sociais.

No universo virtual, o artista difunde a sua arte no site Pinturas e esculturas de João Werner, cujo espaço comporta - além de suas obras - dados biográficos, ensaios e fortuna crítica, notícias, entrevistas e um espaço direcionado ao registro da veiculação de suas obras na web, onde se encontram mais de sessenta poemas que foram devidamente ilustrados a partir de suas criações.

Para integrar O cordeiro pressente o lobo, João Werner selecionou três obras que serviram de ilustração a textos poéticos, dentre elas a obra Na beira do rio e, consequentemente, o poema Cascata.

Através de contato de e-mail, João Werner fez-me a solicitação para apresentar o poema em sua exposição, o que me deixou abundantemente feliz e envaidecida. Por isso, compartilho hoje mais uma das alegrias vivenciadas no HF diante do espelho.

Passemos ao detalhamento das obras in destaque:



Na beira do rio: João Werner


Há um travo na garganta

e um travão nos olhos.


Um metro de lâmina

e uma granula de ópio.


Há uma palavra não-dita

e um silêncio gritante.


Uma ponte escondida

e um chinelo azul verdejante.


Há uma roda viva

e um mar morto


Uma verdade esculpida

e um cavalo solto.


Há coisas para serem ditas

umas - outras – melhoradas...


Uma lágrima fingida

um riacho cheio d'alma:


sebo

nervo

alheio


em cascata.



by hercília fernandes


arroubo

Foto: Thiago La Torre


Se ela, ao cabo, perdida for...


..........................seguir-lhe-ei, fáustico, as horas

..........................em que, raptas, saltam amoras

..........................: vermelho-bordô.


by hercília fernandes


o ser,

fenômeno e inferno,

cai na noite

sem data


by fernando cisco zappa


Poema inédito no Maria Clara


Amigos leitores,

estou com um texto inédito no Maria Clara: simplesmente poesia, intitulado "único".




Para ler o poema clique aqui

Aproveito o post para agradecer-lhes as visitas e apreciações, e pedir-lhes desculpas pela minha ausência nos espaços poéticos que tanto aprecio. Ando numa fase tanto quanto intensa de compromissos e não tenho conseguido, como gostaria, atualizar as leituras.


Forte abraço,

Hercília.

......

Arte: Francielle.

pessimismo


caminho o mundo feito caranguejo

eternas são as voltas ao ângulo de partida

onde o porvir nasce lateral e arcaico


não é fácil destituir ponto determinado

não é fácil enfrentar feras e feridas

não é fácil tornar luxo pardieiro


às vezes, sinto-me sem chão, sem seio

e meus dias, espero contados...



*Imagem extraída do blog de André Benjamim


visceral


Poema sobre ilustração de autoria desconhecida
figura extraída do Google Imagens



Pacotaria do amor no Poema Dia



Se amor se vendesse...

Eu venderia amor em muitas caixas

embrulharia cada uma

com metros de rima e, dentro, só fumaça

para o amor se esparramar, no céu, em cinza mágica.


Se amor se vendesse...

Eu venderia amor tal qual perfume na loja

com data de fabricação bem descrita

mas o vencimento... data vã, indefinida

posto não se saber, ao certo, a hora da chegada

nem quanto a dor da partida.


Se amor se vendesse...

Eu venderia amor em doses homeopáticas.

capitalizaria cada gota de orvalho

faria da rosa seu marketing necessário

e, do beija-flor, um vendedor implacável:


- Quem dá mais? Quem dá mais? Quem dá mais?...

(Na Pacotaria do Amor, você compra amor e leva de brinde uma flor;

por apenas alguns, poucos e míseros, trocados!)


Se amor se vendesse,

eu já estaria rica!...



*Para visitar o Poema Dia, clique aqui.

**Texto também publicado no site www.artigos.com, em 09/08/07.

*** Imagem extraída do Google.


céu abaixo

Arte: René Magritte


A menina voou...

lembrou agruras céu abaixo:

- sonho sumiu.


peleja


Dante e Virgílio no Inferno: William-Adolphe Bouguereau


estou farta de tanta peleja

de tanta manobra à fria mesa

de tanta sobra em falta de gentileza

de tanta humanidade...


Revista Cultural Novitas


Amigos leitores,


à convite da Editora Novitas, o poema 3 falácias de amor, publicado em o Poema Dia, integra o 2◦ número da Revista Cultural Novitas, que encontra-se sob a coordenação editorial da escritora Letícia Losekann Coelho.

Além de textos poéticos, o 2◦ número traz excelentes matérias, dentre elas o artigo “Luís da Câmara Cascudo: um provinciano incurável”.

Estou bastante feliz em participar deste número e convido a todos a conhecerem este projeto da Editora Novitas através da apreciação da Revista Cultural em formato PDF.

Para fazer o download clique aqui.



Saudações poéticas,

Hercília Fernandes.


Jardim Esperança


Para acompanhar leitura

Linda rosa: Maria Gadú



Rosa vinha de mau relacionamento, mas seu coração cultivava jardim de esperanças.

No espelho da mãe, costumava observar as formas de seu corpo e, enquanto absorvia o reflexo da imagem transfigurada, lhe inquietava o espírito a responsabilidade de prover, sozinha, os dois filhos. Porém, a moça era extremamente otimista, beirava a flor dos vinte; e acreditava, fervorosamente, em manhãs frutíferas.

Certo dia, Rosa conhece um rapaz que, novamente, faz seu peito acelerar: sonhos cor-de-rosa passam a alimentar a sua retina. O moço, sério e prestativo, possuindo quase vinte anos a mais, se apresentara bem intencionado; nomeando-se qualificado e disposto a contrair família. Rosa não exitou! Com o consentimento familiar, foi-se com o distinto enamorado, levando consigo seus dois maiores tesouros.

Dias passam, Rosa acredita piamente na felicidade conjugal. Entretanto, passados cinco anos ou pouco mais, a moça começa a perceber pequenas alterações no temperamento do companheiro. Apesar de ele garantir-lhe que nada além do habitual lhe acometia, Rosa intuía que o marido deleitava prazeres mundanos... Pequenas mostras de traição confirmavam as suas suspeitas.

Pouco a pouco, Rosa foi vendo os sonhos cor-de-rosa se dissolverem em cinza aquarela. Porém, como detinha coração verdejante, reconhece que chegara a hora de virar mais uma página da sua história. Certa de sua escolha, reuni os filhos, colocando-os a par da situação. Como era de se esperar, os pequenos se puseram favoráveis à mãe, ofertando-lhe sincera afeição e solidariedade.

Quando a noite chega, Rosa foi-se ter com o marido. Ao declarar a sua decisão, o companheiro apresenta comportamento totalmente inesperado. Enfurecido, alega que Rosa deveria manter amante, mas que não deixaria o delito sem a devida punição. Batendo-lhe várias vezes a face, argumenta que se Rosa não lhe pertencesse, jamais seria de outro homem; e sucedia com os atos de violência mesmo sob os protestos dos filhos que, em vão, espancavam a porta do quarto na tentativa de acudir a mãe.

Subitamente, gritos e gemidos cessam-se e o silêncio impera na casa. No alvorecer do dia, os meninos, estranhando a ausência da mãe, pedem auxílio à vizinhança. Um senhor bastante chegado à família, prontifica-se à tarefa de verificar o casal. Ao invadir o quarto, se depara com a frieza do cenário: Rosa, inteiramente vestida de vermelho, descansava sob os braços do marido que, dormindo, guardava, em uma das mãos, punhal dourado.

Rosa vinha de bom relacionamento... descansa, hoje, no Jardim Esperança.




Nota: Personagem feminina inspirada na canção Linda Rosa, interpretada pela cantora Maria Gadú. Texto baseado, lamentavelmente, em crime ocorrido durante esta semana na cidade de Caicó-RN. As características psicológicas das personagens e situações narradas envolvendo o crime, entretanto, são ficcionais. O crime deixou-me emocionalmente chocada e abalada. Não podemos admitir barbárie, atitudes reacionárias que rebaixem ou silenciem as mulheres, mesmo que "disfarçadas" sob os signos "honra" ou "amor"...


discurso

Diego Velázquez: As meninas


As meninas comentam...

dizem o samba conter única nota

o pior é que ele nem nota!

Mas há um garoto que me corteja

se as imagens não avultam...

possui tórax de ferro e lábios de cereja.

O intrépido madrugada me espreita

resolvi abrir-lhe a guarda

tornar-me bandeja.


As meninas mudarão o discurso...



Poema também postado no Gato.da.Odete

vinhas

meandros II

Arte: Marc Chagall


Ele só viu a frágil figura sobre o tapete. Aquela imagem lhe perseguiu durante dias. Mas ali não se encontrava a doce alma que tornava vinhas azuis. Ali não mais se viam sonhos, gozos, elevações... Vendo-a sucumbir sob deploráveis condições, sentiu-se intimamente culpado. Ao mesmo tempo, incomodava-lhe o fato de ela se apresentar permissiva. Por que cedera, tão facilmente, às suas não-admiráveis investidas?... Durante a vida preocupou-se em fazer-lhe sentir-se rei; esqueceu que, sem viço, rei não é súdito nem lei: é peça de xadrez! Convicto, saiu à rua com o coração aliviado, dizendo a si mesmo não haver algozes nem vitimados. Era preciso acompanhar a lua...


Où l'amour sera roi

Où l'amour sera loi

Où tu seras reine...


meandros


..........Ela tentou fazer-lhe reconsiderar... Acariciou-lhe os sentidos com novos desmedidos ventos de uma velha canção. Em vão. Amores se vão, desejos se vão... Em mostra extrema de devoção, deixou-se ao chão implorando sua permanência. Apelação. Amores se vão, desejos se vão: Ele se foi... deixando seu coração em meandros de saudade sob certa abundância de ausência...


..........ne me quitte pas

..........ne me quitte pas

..........ne me quitte pas



* Ne me quitte pas fez grande sucesso, no Brasil e exterior, na bela voz da cantora e compositora Maysa, agora ganha nova roupagem na interpretação de Maria Gadú.

** Para ouvir/ver as duas interpretações brasileiras de Ne me quitte pas clique nos nomes das cantoras.

(des)equilibração



excesso nem ausência

eis, a máxima da ciência!...

um dia deixo de ser criança

apeio a pena lânguida

desacomodo...



Arte disponível em RespirandoArte.K

...




Não quer mais brincar,

cansou dos jogos de adivinhação.

Se pudesse, moveria eu, tu do ser-tão

- morreria com as borboletas...



*Imagem disponível no Google.


passageiros

diálogo entre miudezas


Arte: Joana Vieira


a)...abduzido

tornou poeira cósmica

entulho espacial


b)...solitária

trafega chuva ácida

entalha nau



habitus

Arte: Lilian Zampol


Ela abaixa a cabeça,

se finge de morta.

Espera que ele se sacie

e lhe deixe as sobras.


Ela ergue o rabo,

mia, roça, amostra:

o que do macho é sagrado

- de fato importa!...


"Habitus" são assim...

gato come, gata aposta

sim...



*Poema escrito com base no comportamento de Inquilina - gata que ronda a minha casa -

e Menino - o meu gato.

viéses




Era carta de amor.

Havia os atributos de carta,

os de amor: imagem virtual de autora

- igual impressão de leitor.

Mas não era conteúdo de memória.

Não pleiteava baú para lembranças...

Embora nela se avistassem as tranças

da estória factual...



*imagem disponível no Google.

3 falácias de amor no Poema Dia

中央揃え

Arte: Alfred Gockel


Nego para melhor
dizer o que as mais
velhas, sisudas e gordas
carolas já estão roxas
de saber...

¡te estraño!


**Para continuar a leitura, visite o Poema Dia.

expansão



sorvo medito
me desfaço em dígitos
como meia dúzia de livros,
noite alarga...


Poesia-balão no Maria Clara

“pelo sim, pelo não”

poesia-balão!...




Amigos,


convido-os à leitura do quadro “postagem simplesmente poesia (12)”, intitulado “pelo sim, pelo não: poesia-balão!...”, no blog "Maria Clara: simplesmente poesia".

No artigo, apresento três textos que se destacam pelo feitio lúdico, donde se destacam os poetas Múcio L. Góes, do blog “traversuras” e Líria Porto, do “tanto mar”.

Além dos poemas lúdicos, o post traz uma breve apresentação da artista Amanda Cass, criadora da série “coração-balão” - artes então presentes aqui no HF diante do espelho.

Ademais, o artigo vem acompanhado de “estraga prazer”, isto é, de notas explicativas sobre a presença da “aliteração” nos poemas in destaque.

Será prazeroso vê-los por lá...


Hercília Fernandes.


arranhões

Para mim e tu (nina rizzi)


Moça da bicicleta: Ana Moraes

imagem extraída do ellenismos



Quando menina adorava bicicleta. Levava bons tombos - é certo! - mas não desistia de dominar a máquina. Soltava as mãos do guidon: irra! pedalava estrada infinita!... Até que um dia caminhão me retirou da trilha. Arranhando-me pernas, joelhos, pés... sonhos. Deixou-me arisca: cicatriz no ombro, ferida na alma...




*Texto escrito a partir de lembranças de fatos reais da meninice, memória reativada após leitura de Nina Rizzi.

**A escrita foi composta na caixa de comentários do blog da poetisa e sofreu pequenas alterações.


intriga

Arte: Amanda Cass

Série “Coração-balão”



alcançamos o fundo

encontramos nada

nada talvez intrigue

tudo em nós


acima, flutuam estrelas...


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Hercília Fernandes
-------------------autora de versos, imagens, canções; ligeiras miudezas e compridas im per fei ções...
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