29/08/2008

Orvalho (Etimologia poética)

diálogo entre textos.


Favor não me chamar:
ervilha
lentilha
milha
qualquer coisa terminada em ilha!

Gosto das mil miudezas...
Aprecio deveras poesia-ilha
Porém, my name is

Hercília!

Me chame orvalho.
Lágrimas aquecem o tom matinal
dispersam tempestades após labores e silêncios.

Me chame firmamento
Jardim em flor desbravando litoral
Rósea cor, purpurina, a-normal
Mas, favor não me chamar

ervilha
lentilha
milha
qualquer terminação em ilha

Meu nome é orvalho
natural-mente
Hercília!


By Hercília Fernandes



Hercília, doce-mente Cecília:


teu nome advém da etimologia poética:
gotas de verso que umedecem os lábios sufocados
pela necessidade de dizer, só-mente cantar,
versejar/velejar nos mares sem cais - não mais –
companheira de Cecília, a vidente cega
(como todos os poetas/profetas)
que iluminam nosso cotidiano, inteira-mente,
e sempre verdadeira-mente.


By Reinério Simões


(In: Comentário ao poema Normal-mente. Disponível em: http://fernandeshercilia.blogspot.com/2007/10/normal-mente.html)

25/08/2008

Folhetim


Não sei por que vem
Nem o porquê do porvir


Quisera não ir...

Apenas permitir a parada, não-parada, d’algum passo
Perdição no tempo e no tracejado d’alguma aquarela...


Quisera não mais ela...
anterior, secular, férrea


Folhetim n’algum
[encardido]
botequim


Celeiro do desvario
inoperância do vento.



24/08/2008

Rapunzel


Ela falava. Falava muito.
[Poucos ouviam-na...]


E gritava. Gritava pranto sereno:


Alfabeto dos mudos
Rio de sombra e luz
em mares profundos.


Ela soluçava. Soluçava infortúnios.


Gira o carrossel
Joga as tranças de Rapunzel
E cai seu castelo de sonhos.


***


Ela era tão sozinha...
[pobrezinha!...]


Cadê o seu príncipe encarnado?
Seu disco voador,
e o seu cavalo "ao lado"?...


Cadê o vilão charmoso
que vela, em silêncio,
o som do seu eco
no pasto?



Ela era tão sozinha...
pobre alma menininha!...


19/08/2008

Candura


Siga o seu caminho, amor
E dispersa-me por entre as curvas...


Siga, sem levar-me ao Lácio:
na medida, no fáustico, ou na serena chuva.


Siga o seu caminho, amor
Já remoemos, lentos, a pena(s) duras.


Siga o seu caminho, amor
E, se possível for,
leve-me, apenas, um gesto de candura...



18/08/2008

Opulência



O ar é denso
como tensos seus modos opulentos.



O ar é eqüidistante
à soma de lágrimas a-temporais.

O ar é fulminante
desvitaliza muros, vare varais.

O ar nada me apraz...
quebra tudo e, contudo, a tudo me atrai.



O ar é denso
como tensos são seus olhos in compênios...



Arte: Giuseppe Dangelico

16/08/2008

Manifesto não-comunista



Os trabalhadores se rebelaram...
Assinam as cartas de alforria.

Os trabalhadores rejeitam autoridades:
– Abaixo feudo, papal, burguesia!...

Os trabalhadores sabem ler ideologias...
E somam dois mais dois
[= cinco!]
E das sobras re-tiram conclusões...

Os trabalhadores enxergam divisões...
Sabem currículos ocultos.

Não escutam loucos falantes
Entendem os sinais do vento
Decifram a língua dos mudos!

Os trabalhadores sabem de si!...


10/08/2008

Quisera...



Quisera poder voar
linhas brancas e límpidas.


A alma não-prisioneira,
habitavel-mente cândida
e ínfima.


Quisera...

simplesmente, não-ser!...



"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)