29/02/2012

despretensão

.
.
.


ela olhou aquelas palavras
e desejou não mais querer
 
quis somente desaguar
transbordar-se à nascente


 

ao rio


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hfernandes


28/02/2012

da história vista de baixo



deveria ser mais politizada...

como historicizar-se engajada
se, factualmente, retalha-se
à ideia de amor?

lutas de classe, gênero, cor...
renderam-se aos seus declínios

não consegue mover-se
palmo acima, região do umbigo,

nem abaixo...



hfernandes,
abr. 2011



*Arte disponível aqui.

25/02/2012

fôlego e atropelo



dir-te-ia coisas bonitas
mas as palavras fogem
escapam-me às mãos,

aos olhos, aos pêlos
- às narinas
torno-me, então, fôlego
e atropelo
vivencio cada sôfrego
nas minhas, tão tuas,

vinhas



hfernandes

22/02/2012

realismo





infelizmente...

não é madrigal
não é temporal

a dor é real:

quarta feira de cinzas!...


 
hfernandes

ensejo


não farei greve de fome
- farei de palavras,
maior ensejo esconde


ou assume...



 

hfernandes

14/02/2012

Isso é Ana Santana




Isso de misturar
azeite, mel e mostarda
enfeite, pedra e palavra
Isso de escrever
Isso de fazer salada
Isso de banho e tosa
tudo invenção nossa
Um modo de fazer crível
a viagem no quarto
a bonança na tempestade
e a liberdade no vício.



“Estrambólico”,

in Em nome da pele (2008, p. 66)




* Isso é a poesia de Ana Santana: poetisa, professora (UFRN), doutora em Literatura Comparada e prefaciadora do livro "Maria Clara: uniVersos femininos" (LivroPronto: 2010). Para conhecer mais sobre a autora, visitem o debate literário no Novidades & Velharias.

* Arte: June Lee Loo


12/02/2012

indiferença




Quando uma estrela se apaga...
é sinal de que devemos zelar pelos corpos que,
despojados de luz, não ocupam as páginas de notícias.

Todos os dias, milhares morrem à míngua...
mas a degradação da matéria não é, em si, o maior dos estigmas:
 


"triste é uma existência ‘na’ e ‘pela’ indiferença".


 

hfernandes



*Foto disponível aqui.

perpetuação



até quando silenciaremos a dor que,
nas profundezas do ser, se perpetua?

alma não se cura com terapia de sintomas...
é preciso extinguir as normoses que operam
mortes,

torturas, humanas.




hfernandes

11/02/2012

do princípio


falam do fim do mundo...
eu queria saber o princípio,
quando éramos possibilidade

e não um meio ou fim


talvez eu devesse ter um romance,
tomar banho de sol quando tudo é inverno.

talvez eu devesse te levar a sério,
sair da rotina, romper o pacto com o tédio.

talvez eu devesse aproveitar o dia,
acolher a sofia de uma nova cor e idéia.

talvez eu devesse ser lua adversa,
ser mais ato e muito menos conversa.
 
talvez eu devesse ser manifesta
e te mostrar de uma só vez:

o caminho que vai, indireto,
das Índias às minhas cobertas!...


hercília fernandes,
in Caminho indireto.

10/02/2012

sexta feira


porei a roupa mais bonita
o sorriso mais faceiro
o olhar mais derradeiro
à fina flor mais encardida

mas não estarei à beira
da avenida
esperando você passar...


hfernandes

09/02/2012

saudação



não é a minha praia...
mas, se tua for, saúdo o sol



hfernandes


Facebookianos (3)


quero uma poesia menor
dessas que não embala
sonhos

abana redes...

na cidade, nem mesmo sapos
desfrutam das coisas naturais
[e não é por falta de insetos!...]
se dê mole, disputam ração com gato
[este último sequer sabe o que é um rato!]
tudo é instrumental, artificial...
- e nós coisificados

falando nisso, cadê o peito de peru
'deformado'?...

a coisa anda tão parada...
mais que isso... só tartaruga encalhada!

[que não tem lá muita pressa,
convenhamos...]

''desisto, p(r)onto!
fecham-se as aspas''




* Miúdos escritos no Facebook,
'cem' motivos de literariedade...
*Foto: Tartaruga-estrela indiana.


08/02/2012

06/02/2012

constrangimento

.
.
.

pela primeira vez, ela sentiu-se
envergonhada

tinha cheiro de pão dormido
mas não de migalhas

recolheu, então, as insignificâncias...


.
.
.


hfernandes

05/02/2012

não era bom dia para poesia


apesar do feriado
do trem desgovernado
do sujeito composto ao lado
do entretenimento na cama
do leão que me abocanha

se(m)eias palavras





04/02/2012

des.fronteiras

Em diálogo com Não sei quantas almas tenho, de Fernando Pessoa.





não sei quantas almas tenho,
fernando, quantos pessoas

me divisam

às vezes, estrangeira
peregrina solo místico

noutras, alça deforme
jura de fé e ceticismo

se me pedes calma
minh’alma venta abismo

lembra as paisagens do ser 

na altivez do espírito

mas se me pedes aridez
minh’alma é alvura

manto de ternura com qual 

se alça criança
 


hfernandes

03/02/2012

pensamento



não quero pensar no amanhã
vida é agora, 


aqui

que o acaso não se achegue
quando não tiver mais jeito



de




h.f.


02/02/2012

rebento



as mãos estão cerradas
os olhos percorrem
único horizonte
a boca é sede fome
tocaia que encanto consome

qual rebento na carcaça
brotando aquém do costume


 

hfernandes

01/02/2012

mãos dadas

.
.
.


eu não posso,
sozinha,
solucionar a crise
econômica global
o desequilíbrio
socioambiental
o imperialismo
norte-americano
e a herança
da era colonial

a fome e a miséria 

nos países africanos
e a dependência
externa
dos estados latino-
americanos

mas eu posso
unir minha língua
à sua
meu coração
ao seu espanto


.
.
.


h.f.

planejamento

  
alterar o curso do rio
destituir gavetas
pintar a cara à esfero-
gráfica vermelha
provocar sensações
de arrepio

morrer de amor
até que chegue a manhã


e o amor me tomou
de um jeito

já não sei se fico
ou voo

estou



*Foto localizada aqui.
"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)