26/02/2013

Os Cios do Som e Os Sons do Cio*


(Ensaio escrito pelo escritor e doutorando em História e Crítica Literária Carlos Eduardo Marcos Bonfá sobre o livro "Nós em Miúdos", de minha autoria, a ser lançado brevemente pela Editora Patuá).


não basta amor
essa palavra gasta!...

passa trem a vapor

:

uva passa


Hercília Fernandes,
In “Nós em miúdos”,
Patuá: 2013, p. 81



Fábio Andrade (2010) afirma que o silêncio significante está no núcleo discursivo da poesia hermética. Se silêncio significante quiser mesmo dizer outra hipótese de fala, segundo expressões do mesmo autor, essa espécie de silêncio também se encontra na poética de Hercília Fernandes.


[...] a poética de Hercília Fernandes faz o silêncio assumir uma de suas configurações básicas para os mesmos poetas herméticos: “monitoramento crítico da linguagem e recusa de imagens e figuras gastas, alijando uma reflexão sobre a capacidade expressiva da linguagem” (ANDRADE, 2010, p. 156).

Mas este monitoramento crítico não toma uma via especificamente vanguardista no sentido da tradição da ruptura nem uma via de contato com o barroquismo [...] mas uma via de reapropriação discursivo-imagética.

A poética de Hercília Fernandes propõe [...] monitorar as imagens e figuras a partir daquilo mesmo que tem de gastas, ora remanejando suas localizações em um perfil mais evidente de mapa inusitado ora fazendo o silêncio falar mais alto que elas, pois em sua poética o silêncio é às vezes a principal leitura, ou a leitura que mais faz sentido. E ler o gasto a partir do silêncio que o tensiona faz com que a leitura seja outra, faz com que o ângulo das coisas se altere".



Carlos Eduardo Marcos Bonfá,
in fragmentos de "Os Cios do Som e os Sons do Cio".
(Ensaio a ser publicado, submetido à análise da Revista Blecaute).




*O ensaio consiste uma crítica bastante acurada da minha poética e, especialmente, do que falo ou proponho no livro “Nós em miúdos”. Na escrita, o teórico apresenta-nos um olhar atencioso e sensível sobre a obra: crítico no exame daquilo que se propõe a ler e sensível na medida em que questiona ou relativiza a própria crítica de. Autores como Fábio Andrade, Octavio Paz e Sartre, entre outros, orientam os seus ângulos de análise, bem como embasam o seu discurso. Brevemente, fornecerei maiores informações sobre o canal e o tempo de publicação.
** O livro Nós em miúdos já está disponível para aquisições no site da Editora Patuá. Visite a página e conheça um pouco mais sobre a obra, clique aqui.


19/02/2013

quando o silêncio e a solidão não convêm...


ainda que não faltasse
pão à mesa
que as crianças fossem
robustas
as casas hospitaleiras

desprovida de expressão,
nada eu seria

triste é uma vida
de silêncio e solidão
comunitários


hfernandes,
19 fev. 2013


12/02/2013

três poemas de

há dias acometem-me as ambições

de

como se respirar, sonhar, sorrir
bens fossem alienáveis

ao fim


***


vestiu-se 
para acentuar
a sua dor 
na vergonha

medonha foi a impossibilidade de


***



é esse excesso de realidade
que ofusca
cega

o voo
a queda

qualquer possibilidade de...




hfernandes,
em luas diversas.



sensata


bastou-lhe a leitura
de uma palavra

sensata

para o seu castelo
de sonhos ruir

e a palavra nem foi
de todo ruim...

só timbrou feito
martelo,

lúcida


hfernandes,
10 fev. 2013


06/02/2013

quebranto




e novamente negaste
esse silêncio que, em nós,

ora
avulta

a minha alma nua

chora
se turva

e, no entanto, fora, nenhum quebranto

à sombra


  
hfernandes,
06 fev. 2013


22/01/2013

Um Poema Oportuno






Créditos do vídeo:
Canção: “Um Poema Oportuno”,
do livro Retrato de Helena (2005).
Melodia, arranjos e vozes: Marcus Vinicius
Texto e edição de vídeo: Hercília Fernandes
Imagem: Charles Chaplin em luzes da cidade (1931).



31/12/2012

Receita de Ano Novo


Prezados(as) Amigos e Amigas,

agradeço-lhes a boa companhia, aprendizado e poéticas várias em 2012. E, igualmente, desejo-lhes um Novo Ano repleto de bons sentimentos e luzes divinas. Que possamos acordar a criança que cochila em nós, como bem alerta-nos o poeta, para a reinvenção do presente. Sabendo-nos, no entanto, herdeiros de um longo caminhar humanizado.

Um Feliz 2013 a todos e todas,
Hercília Fernandes.




Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade,
In Receita de Ano Novo.


"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)