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11/07/2009

Re(s)postando 3


Apetrechos


Reuni os meus apetrechos,

espalhei flores sobre a cama.


Penteei meus longos cabelos

joguei os pés, doídos, à santa.


Caí na calada da noite

cantei, dancei música cigana.


Colei retratos na janela

bebi álcool com laranja.


Depois subi pelas paredes:

(quase lhe pedindo...)

socorro, pano, lâmpada!


Mas você nada me disse

nem nada me fingiu dizer.

Nem mesmo me arriscou um palpite

sobre o meu jeito lânguida de ser.


É por isso que eu fico assim meio triste

(nesse disse me disse)

Esperando...

minhas coisas:


..........[cama (de flores)

..........[santa (de redenção)

..........[cigana (de amores)

..........[laranja (de odores)

..........[lâmpada (de contemplação)

..........[lânguida (de solidão)


Você [me] recolher!...




Texto postado em 19 ago. 2007.

Imagem disponível no Google.


08/07/2009

Re(s)postando 2

La Scapigliata

Leonardo da Vinci


nor mal mente


É normal que eu tenha sonhos

que eu queira voar sem asa delta

que eu me despedace por amor

e mantenha portas sempre abertas.


É normal que eu faça juras secretas

que eu me esforce por ganhar

que eu vença o medo de perder

que eu cante:

madrugada até o entardecer!


É normal que eu chore

des con so la da mente


que eu ria

com pul si va mente


que eu grite

in tem pes ti va mente


que eu ame

tão dul cís si ma (mente)


É normal,

tão nor mal mente...


(09 out. 2007)


23/04/2009

Sentidos...


minha alma não alinha...
aguça.


ao pé do sótão ou porão:
― casa muda...

23-04-09





..........................................................................Solidez


minha alma não sabe o que é norma
minha alma não segue padrão
minha alma só sabe o que sente,
ardente, o coração.

mesmo assim eu fiz uma canção
para embalar minh'alma sozinha
ela ficou tão triste...
eu tive que retirá-la da caixinha.

a caixa parecia colorida
cheia de flores e laços e fitas
mas dentro parecia vazia...
de um certo ramo de rema de rima.

minha alma não sabe o que é lei
minha alma não conhece o Português
minha alma só vive as voltas
da vã censura e fria solidez!...

24-06-07



14/04/2009

Futurismo

Duas borboletas voavam
paralelas ao meridiano.
Enquanto eu as contemplava...
uma tomava a rosa dos ventos;
a outra - as dores póstumas.

.............................Tudo se fez tão rápido...
........................................como um país de sonhos.



04/02/2009

Balanço


Enquanto minha alma livre, leve, fluída passeava...
O verde esmeralda nos seus olhos me sorvia e guardava.
E havia tantos viços e tantos risos e tantos sisos de uma infantilidade acordada.
Serenidade nos modos de uma tempestade de metros na tépida madrugada.
Sinais de uma inocência tardia, de uma imortalidade albina e reflexionada.
E de chuvas de vento de um febril lamento em brejo d’água.


04/11/2008

Estranheza


Poetas se apaixonam...
Nada há de estranho nisso!

Aconteceu com o Pessoa, a Flor Bela, o Vinícius...
- Que dirá, pobre mortal, consigo?!

Poetas se apaixonam...
A palavra desce quente garganta ao umbigo.

E a estranheza?
[cá entre nós...]
também faz parte do ofício!...


Arte: Gustav Klimt


26/10/2008

A-mora



Cama, armário, porta, gaveta...


Poética da casa!


manual-
idade
em miudeza!...


Rosa, cabrocha, brotoeja...


Fim de papo!


cordial-
idade
rósea a-mora em ameixa!



19/10/2008

Quefazer



Minha vida é o caminhar,
quefazer infinito.

Caminhos de pedras, retas, labirintos...
Dura e pérfida!
Fumaça passa em desalinho.

Minha vida não é a melhor amiga
Nem a pior conselheira...

É a caça do eu perdido em curvas
E a presa tátil nas vigas.

Dirão os que virão:
“Foi mar de ondas claras
em vales profundos”.

[Ou...]

“Glória sem brasão
riacho de lágrimas
infortúnios”...

Eu, ao longe, apenas lhes direi:
- Enxergai as folhas no barro,
no pão.

As gotas de orvalho
no prumo,
vale sem promessa, oceano sem direção.


05/10/2008

Perdidos & Achados

Aos amigos leitores [e poetas] brasileiros e portugueses.


Busco me achar
Nas imagens deformadas.
Busco me perder
Nas tuas veredas perfeitas.


Busco apenas enxergar
A tua face morta na margem.
Posto, sei, é muito tarde
Para qualquer enquadro na trave.


Busco viajar
Entre esferas e esquadros.
Busco suprimir
O que há em nós de extrato.


Busco qualquer discurso
Seja: quimérico, ilusório, abstrato.


Busco um pôr-do-sol
Que aja em nós
Como punhada de anzol.


Busco trafegar
Entre colunas além-mar.
Busco contemplar
A luz que faz questão de se esconder.


Busco vivificar
Um poema fácil de se ler.

Busco reconhecer
Um idioma para me atar.


Busco uma racionalidade
Fácil de sistematizar.
Busco uma animalidade
Difícil de se desenhar.



Busco um país
Que me pareça sólido, ora triz
Busco um neo-idílico feliz
Com a quimera, as trevas
E a luz néon de um antigo Paris.


Busco simplesmente...
O essencial em Portugal
Compreender o porquê
De nascermos simplesmente
Tão animal e tão desigual
E entender por quê:

- O Bem, às vezes, reveste-se de Mal.



Arte: Marc Chagall


FERNANDES, Hercília. Perdidos e achados. In: ______. Agá-Efe: entre ruínas & quimeras. Natal-RN: Natal Gráfica, 2006, p. 70.


01/10/2008

Madeixas II

(Outro pente...)


Alguém sabe ‘aonde’ foram parar os meus cabelos?...
[Ando careca por tanta inquietação!]


Eles se desprenderam de minha cabeça
Indo buscar outro pente
para pentear

viva-morta
nova-velha

emoção!



11/09/2008

Busca


O que busco, parece-me, não está aqui...

Não está nas sedas, jóias, cortesias...
[pobres e utensílios domésticos!]

Não está nas rosas, róseas,
Ou nas pálidas borboletas de jardins.

Nem nas várias honrarias e poucos méritos...


_________________________________________________________


Está em certa cor e vibratilidade
n’alguma incerta promessa...

Possibilidade concreta
[não-pertencimento]
de coisa que não se vende, nem se acha!

Isso, parece-me, é [ser] muito
Isso, parece-me, improvável
[de graça!]
tanto quanto inoportuno.


11/06/2008

Madeixas




Ando a gostar de miudezas:
botões, zíperes, golas e gomalina.



Ando a espreitar rósea cor em tom ameixa
E caras limpas.


Ando esquecida das curvas...
E ziguezagueando reta linha.



Ando por saletas e asas miúdas
depurando néctar à banho-maria.



mais...

- aonde estão as minhas madeixas?!...



"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)