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22/11/2010

rósea como branca face amada



Ela disse:
estou de férias em casa
embora na verdade estejamos no mar
então eu a peguei olhando do espelho
e a forcei a concordar,
dizendo:
você deve ser a sereia
que levou Netuno para um passeio
Mas ela sorriu para mim tão tristemente
que minha raiva passou imediatamente.

fragmento de "A Whiter Shade Of Pale",
interpretação de Procol Harum.
 



O tempo parece paradoxal...
mas sabe também amigo, assim sinta-o.
O destino não comanda o pertencimento.
Há algo mais surreal, fantasmagórico,
posto estranhamento.

Entenda: ela é uma das virgens
escolhida para guardar o templo.
Manter acesa a chama dos sonhos
com a palidez dos sentimentos.

Maktub, assim estava escrito!...

Há enorme beleza no gesto
Talvez a duas ou três décadas
vocês possam bailar essa canção
O fandango que as mãos tonta-
mente aplaudiram pelo salão
Então verá sua face empalidecer
tornar-se ainda mais translúcida.

Certamente, você se inquietará
Atenderá aos cantos das sereias
no curso das marés em que faz
brilhar rios de arrecifes.
Porém, à Sherazade, ela bordará
fios d’ouro para que a narrativa
jamais o desmotive.

Assim está escrito: não crê?
A chama permanecerá acesa.
E dar-se-á, enfim, o mergulho
às águas que, translúcidas,
afugentarão o oceano.

Sinta: a cama encontra-se posta.
E ela é rósea como branca a face
de sua amada.




*Arte: Estudo de Mulher (Rodolfo Amoedo).
Disponível aqui.

12/02/2009

Abandono

(diálogo entre "miúdos" escritos em períodos distintos)


Toxina

A lança sabe ser fagueira
cumpre seu destino abrasador.

Sabe quando fraqueja...
e remonta o plano de plana(r)-dor.

A lança sabe da toxina na ponta de sua língua:

caí!
.
.
.



Abano

Às vezes é preciso abandonar idéias
para não abanar maleficências...

domei as palavras pelas rédeas
.......................................evaporei!...


Arte: Modigliani


04/01/2009

Pote de mel



A vontade de transpor a ponte - acredite-me! - é imensa.
Imensidão que não se pode trasladar para não quebrar o pote
de mel
escondido nas cores do arco-íris!...


10/12/2008

Uma página da história


Adianta tamanha procissão de ternura?

O tempo não soprará os ventos de outrora
nem sob ação da chuva e as mil voltas do coração.

A filha do sopro cessa seu pranto sereno

[como quem guarda, em livro envelhecido,

uma página da história]

tal desengano, tal estranheza

banha - em brando rio - a dor vinda, jaz, obsoleta.


Arte: Gustav Klimt (Poetry)

09/11/2008

Decoro


Seria mais fácil sendo mentira...

Se não houvesse santos, heróis ou vilões
seria fácil, haveria equilíbrio.

Então se teria a roupa certa...
Não a mais bela:
a maquiagem correta!

Por que deve haver ética,
códigos de honra.
Uma legião de coisas
que balanceia e entristece.

Para que haja foros de verdade
Para que aja o decoro
E se extirpe a animalidade.

Seria mais fácil [se] vestindo a roupa certa!...


Arte: Mulher em Vermelho.


26/10/2008

A-mora



Cama, armário, porta, gaveta...


Poética da casa!


manual-
idade
em miudeza!...


Rosa, cabrocha, brotoeja...


Fim de papo!


cordial-
idade
rósea a-mora em ameixa!



29/09/2008

Providência



Busco-te...

como quem prende âncora ao mar
como quem cai abismo sem fim
como quem peleja a vagar.

sabendo que é trabalho sem termo:
se me vens,
contemplo, apavoro, esmoreço.

porque meu olhar se perdeu no horizonte
E a cegueira, se providência,

é límpida, é monte.


Busco-te...
para me silenciar.



Arte: Salvador Dali.


11/09/2008

Busca


O que busco, parece-me, não está aqui...

Não está nas sedas, jóias, cortesias...
[pobres e utensílios domésticos!]

Não está nas rosas, róseas,
Ou nas pálidas borboletas de jardins.

Nem nas várias honrarias e poucos méritos...


_________________________________________________________


Está em certa cor e vibratilidade
n’alguma incerta promessa...

Possibilidade concreta
[não-pertencimento]
de coisa que não se vende, nem se acha!

Isso, parece-me, é [ser] muito
Isso, parece-me, improvável
[de graça!]
tanto quanto inoportuno.


06/09/2008

Perto demais




Eles não se pertenciam. Havia um filme e um tema de amor: Closer and The Blower’s Daughter.

Assim como na tela do cinema, onde seres autômatos caminham anônimos pelas ruas da cidade, eles se estranhavam e buscavam abrir caminhos caminhando...

Na distração do cenário: uma batida, um freio no tempo, um sobressalto. Eles se reconheceram.

- Oi, estranho! Disse-lhe ela.

Ele nada respondeu, apenas sorriu. E, no seu sorriso, o descontentamento tornou-se riso e o siso vestiu-se de beleza.

Olhos verdes-azuis. Todo o céu sorriu-lhe.
A cinza paisagem tornou-se fértil aragem, a alma já não lhe doía em pranto silenciosa, nem os pés doridos incomodavam-lhe os passos: seus tamancos verdejaram-se.

Ele a amou a primeira vista. Isso é certo! Porém, não soube vislumbrar a sua verdadeira face. Não compreendeu a natureza de sua poética:

- Por tão bela, tão etérea tal qual a filha do sopro na primavera, qual o nome dela?... Ele se inquietava.

Meio dia. Uma, duas, três... perto demais!. Dezesseis horas... A canção embalava os amantes, oferecia asas à imaginação e vestia a história até então não-dita.

Eles não se pertenciam...
Havia um filme e um tema de amor:

Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?

I can't take my eyes off of you…



Sugestão de vídeo: The Blower’s Daughter (by Damien Rice). Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=UHPTHP4dihA



01/08/2007

Desejos infantis



A cada dia me torno mais estranha
A cada dia já não reconheço

minha face adormecida na amplidão.
A cada dia sinto-me menos fluída
A cada dia me nego, um pouco mais,

à contemplação.


A cada dia me desinteresso por coisas sensatas
E por coisas não-sérias também.
A cada dia apresento menos tolerância,
para não dizer: desdém!


A cada dia choro em meu silêncio
E clamo uma nova cor e idéia
Contrariamente, tarda-me chegar a primavera.
E, com ela, a luz e a chama de uma vela.


Assim, meus dias vão passando:
sem serenidade, dormência ou engano
Assim, meus dias vão perdurando
(Enquanto choro em meu silêncio)
Os meus desejos infantis e secretos planos.



"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)