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06/09/2010

Das sentimentalidades

e/ou das cartas de amor


Essa não é uma carta de amor. Não é uma expressão de afeto, nem mesmo o provérbio de uma oração parafraseada por minha solidão.
Essa não é uma construção advinda de uma inspiração, nem, tampouco, um soluço, um goto em meu coração.
Essa não é uma escrita de reflexão. Não é objeto da ciência, nem da religião. Essa é o nada, é o tudo, é apenas palavra.
Palavra que tomo emprestada, que revitalizo quando me tomam os ouvidos as vozes sufocadas ...



*Para continuar a leitura dessa "carta que não é de amor"... visitem o Maria Clara: simples mente poesia, clique aqui.
**Arte: José Ferraz de Almeida Junior.

 

24/04/2009

Resistência no Poema Dia


O mundo mudou e eu ainda não me dei conta. Ainda me pego contemplando as estrelas, desafiando a lua e invocando São Jorge para me proteger – com sua espada - do dragão. Muito embora, também aspire corromper o herói em vilão.

O mundo mudou e eu ainda fico de bobeira, vagando noite adentro, madrugada inteira, só para colorir e admirar borboletas. Ainda busco significados nas lendas, ainda me reservo o direito de cultuar uma Helena...


*Para continuar lendo a prosa-poética dirija-se ao Poema Dia.


12/04/2009

Motivo


A solidão me faz fabricar segredos, sussurros ao pé do ouvido, e, no interdito alimento o meu desejo. A solidão me faz chover e molhar a seda na mata escondida, faz-me buscar-te no espelho que é essa máquina fantástica e maldita.

Faço da minha palavra a minha arma: a bomba-relógio, o vinho, o ópio; não por pretensão filosófica, ideológica, religiosa..., mas, por uma contemplação poética, diria que provérbica, da minha - da minha tão somente minha -, existência.

Faço da minha dor beleza, até porque, mesmo na tragédia, há uma dose de beleza. Então contemplo a minha abstração, transfiguro o real e aprecio a flor estampada na minha solidão. Às vezes, disperso-me e sinto-me tão ausente e tão plena, que nem eu mesma sei onde estou (e para onde vou), “sei que canto e a canção é tudo, tem sangue eterno e a asa ritmada. Um dia sei que estarei mudo: mais nada[1]”.

E o meu canto é doce, tão doce que voam ao meu derredor borboletas de várias cores, formas e espécies. E elas tentam, a todo custo, desnudar a minha face coberta de neve. Fico pensando se um dia elas retirarem os véus que me encobrem o rosto, o que serei aos teus olhos depois do exposto? O que se passará quando meus pés deixarem de tocar as nuvens e puserem ao chão? Certamente me acharás e me verás em minha solidão.

Ah..., mas quando esse dia chegar, não penses que saberás tudo de mim! Pois, não tenho o hábito de me deixar abrir. Vivo numa caixinha mágica; dentro, tudo posso, tudo me é permitido sonhar. Em meus sonhos, posso ir ao teu encontro e narrar-te uma noite e meia de contos e mais contos. Contos das mil e uma noites, histórias de fadas, heróis, vilões... temperadas por dores, amores e contenções.

Ah..., não queiras me conhecer, não me desejes à previsibilidade. Para que a notoriedade se a noite vem e cobre o instante de verdade?

Queiras tão somente me sentir e beber fugazmente. Sem deixar marcas na taça, sem repetir as minhas, várias e tardias, falas. Não queiras ser a ninfa que anseia desesperada por uma fala a Narciso. Não queiras me tomar e me encher os ouvidos, porque não preciso de tua voz, não preciso de teu eco, não preciso de teu remédio. Queiras tão somente a minha momentânea loucura; nela, poderei ser tua. Queiras a minha inverdade: a fantasia, o caos, a incompatibilidade.

Quando assim me quiseres, encontrar-me-ás nas nuvens, inteiramente coberta por véus multicolores. Então, nesse dia, poderás me tirar a seda azul que me envolve a maçã e a cinza fumaça que me encobre a manhã. Mas, nem mesmo assim me acharás. Para que me desnudar se a verdade está nas borboletas que insistem em te buscar[2]?



Notas:

[1] Cecília Meireles: Motivo, in: Viagem, 1939.

[2] Prosa-poética pertinente ao livro Agá-Efe: entre ruínas & quimeras (FERNANDES, Hercília, 2006, p. 21).


24/03/2009

Mania de Maria-só-zinha no "Poema Dia"

Imagem: Eu e minha boneca


Eu ainda brinco de boneca
e a minha boneca chama-se Maria.
Durante o dia, dentro de um armário,
eu guardo, com cuidado, a minha bonequinha.
Depois cuido para que ninguém perturbe
nem que alguém machuque
a minha doce Maria-só-zinha...



* Para continuar a leitura dirija-se ao Poema Dia.
**Do livro Agá-Efe: entre ruínas & quimeras
(FERNANDES, Hercília, 2006, p. 95-96).


20/11/2008

Quebrando pratos


Hoje eu quero quebrar os pratos
Pintar um verme na sua cor e bandeira
Triturar dentro de mim os seus rastros
Antes que eu me quebre por inteira.

Hoje eu quero quebradeira
E quero uma boa dose de veneno
A harmonia na pausa e no contra-tempo
A tristeza e alegria de uma dança grega.


Hoje eu quero me vestir de rato
Para roer sua intolerância e destreza
Para carcomer sua falsidade e tormento.


Para provocar o seu entorpecimento
Para vomitar nos calços de sua firmeza
Para tirar os cadarços de seus sapatos.


Arte: Van Gogh


** Do Livro Agá-Efe: entre ruínas & quimeras. FERNANDES, Hercília: 2006.


05/10/2008

Perdidos & Achados

Aos amigos leitores [e poetas] brasileiros e portugueses.


Busco me achar
Nas imagens deformadas.
Busco me perder
Nas tuas veredas perfeitas.


Busco apenas enxergar
A tua face morta na margem.
Posto, sei, é muito tarde
Para qualquer enquadro na trave.


Busco viajar
Entre esferas e esquadros.
Busco suprimir
O que há em nós de extrato.


Busco qualquer discurso
Seja: quimérico, ilusório, abstrato.


Busco um pôr-do-sol
Que aja em nós
Como punhada de anzol.


Busco trafegar
Entre colunas além-mar.
Busco contemplar
A luz que faz questão de se esconder.


Busco vivificar
Um poema fácil de se ler.

Busco reconhecer
Um idioma para me atar.


Busco uma racionalidade
Fácil de sistematizar.
Busco uma animalidade
Difícil de se desenhar.



Busco um país
Que me pareça sólido, ora triz
Busco um neo-idílico feliz
Com a quimera, as trevas
E a luz néon de um antigo Paris.


Busco simplesmente...
O essencial em Portugal
Compreender o porquê
De nascermos simplesmente
Tão animal e tão desigual
E entender por quê:

- O Bem, às vezes, reveste-se de Mal.



Arte: Marc Chagall


FERNANDES, Hercília. Perdidos e achados. In: ______. Agá-Efe: entre ruínas & quimeras. Natal-RN: Natal Gráfica, 2006, p. 70.


"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)