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30/05/2009

Re(s)postando...


— Coitada dela! Falava-lhe a voz da in-consciência.

Ela sentia-se vazia: sem cor, sem parede, sem teto, sem chão.

Faltava-lhe o ar comprimido... élan vital. Faltavam-lhe o pôr-do-sol, a primavera e a voracidade matinal. Faltavam-lhe o néctar da tarde e o solo frugal. Todas essas coisas in-sensatas que adoçam o peito de saudade...

— Coitada dela! Coitada dela!... O canto tenebroso da insistência insistia-lhe aos ouvidos.

Faltava-lhe o sexto sentido: o bruma da paixão, o pêndulo do esquecimento. Vale de larvas e flocos de prata se desdobrando em flor de cimento.

— Coitada dela, coitada dela...

Exposição fria, cruel, nua. Paisagem viva-morta n’alguma in-existente aquarela...

— Coitada dela!...



Texto postado em 13/10/07.

03/05/2009

voos


feitiços, pouco a pouco, se desfazem
poções alcançam graus desejáveis
ao longe,
vassouras arriscam voos...



pedágio


Não há pedras...

.......................Há nau frágil

............................................lâmina, pedágio

.....................................................................cinza estrada...


23/04/2009

Sede

Para Adriana Godoy



Chovia muito.
O céu se apresentava cinza,
opaco, tal qual fumaça de cigarro
em corpo sedento de bruma,
de nau frágil...



17/01/2009

Mudança


Um alienígena, após longo período de expedição,
pergunta à esposa:

— Querida, como está o Planeta?
A mulher, com a face desbotada, responde ao marido:

“Nada mudou em Marte,
exceto, a cor!...”


Arte: Alice Prina: mundança em cores.


31/07/2007

Pacotaria do amor


Se amor se vendesse...
Eu venderia amor em muitas caixas
Embrulharia cada uma
com metros de rima e, dentro, só fumaça
Para o amor se esparramar, no céu, em cinza mágica.

Se amor se vendesse...
Eu venderia amor tal qual perfume na loja
com data de fabricação bem descrita
mas o vencimento, data vã, indefinida
Posto não se saber, ao certo, a hora da chegada
nem quanto a dor da partida.

Se amor se vendesse...
Eu venderia amor em doses bem homeopáticas.
Capitalizaria cada gota de orvalho
faria da rosa seu marketing necessário
e, do beija-flor, um vendedor implacável:

- Quem dá mais? Quem dá mais? Quem dá mais?...
(Na Pacotaria do Amor, você compra o amor e leva de brinde uma flor, por apenas alguns, poucos e míseros, trocados!)

Se amor se vendesse...
Eu já estaria rica!



Texto também publicado no site www.artigos.com em 09/08/07.
Disponível: http://artigos.com/artigos/artes-e-literatura/pacotaria-do-amor-2049/artigo/



Imagem: Caixa de Presente de Bat Mitsvá com Coração
Sêfer. Disponível, à venda, no site:<
http://www.sefer.com.br/produtos.aspx?subid=35&subn=Diversos&ctgn=Artigos+Judaicos&ctg=1>.

10/04/2007

Mar vagabundo


Há um mar em mim.

Um mar de águas revoltas.

Nuvens pesadas circulam passageiras

Areias, em fileiras, atiram-me ao fundo

quase sempre certeiras.


Há um mar em mim

E eu tantas vezes nada entendi:

Da cor que me veste olhos d'agua

E do vento que me sopra à maré baixa.


Pois há um mar em mim

E eu não tive sequer escolhas

Não pude dizer (ao mar)

que parasse com esses cantos sombrios

Nem que me deixasse a não-mercê de tais desafios.


Por que esse mar é fora da lei

Não sabe o que é sorte, nem teme solidez

Tudo sente, nada sofre e me move à embriaguês.


Por que esse mar é poço sem fundo

Quanto mais arrasta, mais revira tão doce mundo

Secando-me as águas claras em tons cinza profundos.


Isso tudo porque esse mar é vagabundo...



02/01/2007

Peso e Medida

De repente...
Não mais que de repente...

(...) E só ficaram as vestes noturnas da saudade
E pousaram, sobre mim, as escuras asas da sobriedade.

Porque o verde virou cinza
(tenho visto, não há cor pior!)
E o azul glicerina
(tenho dito: a imagem deformou-se de tanta dó).

O olhar sereno, meigo, inocente
perdeu a cor, o ritmo, o tom
Dando lugar à dúvida, à luxúria...
Ao peso e a medida da razão.

E o olhar entristecido,
embevecido, no trajeto e no passo vazio,
rio estarrecido das cores cinzas do frio coração.

Assim, haja vista!

"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)