— Coitada dela! Falava-lhe a voz da in-consciência.
Ela sentia-se vazia: sem cor, sem parede, sem teto, sem chão.
Faltava-lhe o ar comprimido... élan vital. Faltavam-lhe o pôr-do-sol, a primavera e a voracidade matinal. Faltavam-lhe o néctar da tarde e o solo frugal. Todas essas coisas in-sensatas que adoçam o peito de saudade...
— Coitada dela! Coitada dela!... O canto tenebroso da insistência insistia-lhe aos ouvidos.
Faltava-lhe o sexto sentido: o bruma da paixão, o pêndulo do esquecimento. Vale de larvas e flocos de prata se desdobrando em flor de cimento.
Se amor se vendesse... Eu venderia amor em muitas caixas Embrulharia cada uma com metros de rima e, dentro, só fumaça Para o amor se esparramar, no céu, em cinza mágica.
Se amor se vendesse... Eu venderia amor tal qual perfume na loja com data de fabricação bem descrita mas o vencimento, data vã, indefinida Posto não se saber, ao certo, a hora da chegada nem quanto a dor da partida.
Se amor se vendesse... Eu venderia amor em doses bem homeopáticas. Capitalizaria cada gota de orvalho faria da rosa seu marketing necessário e, do beija-flor, um vendedor implacável:
- Quem dá mais? Quem dá mais? Quem dá mais?... (Na Pacotaria do Amor, você compra o amor e leva de brinde uma flor, por apenas alguns, poucos e míseros, trocados!)