26/08/2007

vai & vem


Por que você não me diz alguma coisa?
Por que só me fala em silêncio?
Por que você não me toma em seus braços?
E deixa para depois o arrependimento?


Por que você não me dá um sim?
Se nunca me deu um não?!
Por que você deixa sempre em aberto
as grades do silêncio e da prisão?


Por que você não diz que me ama?
Se seus olhos mal conseguem me ver?
Por que você não sucumbi à chama?
Se posso sentir:
sua dor, seu desprazer?!


Por que você não some de uma vez?
E me deixa entregue às velhas sombras?
Por que você vive sempre tão cortês?
E eu perdida no vai e vem das ondas?


Por que você não sai de mim?...


16/08/2007

Apetrechos



Reuni os meus apetrechos,
espalhei flores sobre a cama.

Penteei meus longos cabelos
joguei os pés, doídos, à santa.

Caí na calada da noite
cantei, dancei música cigana.

Colei retratos na janela
bebi álcool com laranja.

Depois subi pelas paredes:
(quase lhe pedindo...)
socorro, pano, lâmpada!

Mas você nada me disse
nem nada me fingiu dizer.
Nem mesmo me arriscou um palpite
sobre o meu jeito lânguida de ser.

É por isso que eu fico assim meio triste
(nesse disse me disse)
Esperando...
minhas coisas:

[cama (de flores)
[santa (de redenção)
[cigana (de amores)
[laranja (de odores)
[lâmpada (de contemplação)
[lânguida (de solidão)

- Você [me] recolher!


01/08/2007

Desejos infantis



A cada dia me torno mais estranha
A cada dia já não reconheço

minha face adormecida na amplidão.
A cada dia sinto-me menos fluída
A cada dia me nego, um pouco mais,

à contemplação.


A cada dia me desinteresso por coisas sensatas
E por coisas não-sérias também.
A cada dia apresento menos tolerância,
para não dizer: desdém!


A cada dia choro em meu silêncio
E clamo uma nova cor e idéia
Contrariamente, tarda-me chegar a primavera.
E, com ela, a luz e a chama de uma vela.


Assim, meus dias vão passando:
sem serenidade, dormência ou engano
Assim, meus dias vão perdurando
(Enquanto choro em meu silêncio)
Os meus desejos infantis e secretos planos.



31/07/2007

Pacotaria do amor


Se amor se vendesse...
Eu venderia amor em muitas caixas
Embrulharia cada uma
com metros de rima e, dentro, só fumaça
Para o amor se esparramar, no céu, em cinza mágica.

Se amor se vendesse...
Eu venderia amor tal qual perfume na loja
com data de fabricação bem descrita
mas o vencimento, data vã, indefinida
Posto não se saber, ao certo, a hora da chegada
nem quanto a dor da partida.

Se amor se vendesse...
Eu venderia amor em doses bem homeopáticas.
Capitalizaria cada gota de orvalho
faria da rosa seu marketing necessário
e, do beija-flor, um vendedor implacável:

- Quem dá mais? Quem dá mais? Quem dá mais?...
(Na Pacotaria do Amor, você compra o amor e leva de brinde uma flor, por apenas alguns, poucos e míseros, trocados!)

Se amor se vendesse...
Eu já estaria rica!



Texto também publicado no site www.artigos.com em 09/08/07.
Disponível: http://artigos.com/artigos/artes-e-literatura/pacotaria-do-amor-2049/artigo/



Imagem: Caixa de Presente de Bat Mitsvá com Coração
Sêfer. Disponível, à venda, no site:<
http://www.sefer.com.br/produtos.aspx?subid=35&subn=Diversos&ctgn=Artigos+Judaicos&ctg=1>.

06/07/2007

Fiel testemunho



Não preciso de muito...

Basta um olhar
Basta um sorriso
Basta um encontro:

a Lua e o Sol no altar
tendo, no mar, um fiel testemunho.

(Não preciso de muito!...)




24/06/2007

Solidez



minha alma não sabe o que é norma
minha alma não segue padrão
minha alma só sabe o que sente,
ardente, o coração.

mesmo assim eu fiz uma canção
para embalar minh'alma sozinha
ela ficou tão triste...
eu tive que retirá-la da caixinha.

a caixa parecia colorida
cheia de flores e laços e fitas
mas dentro parecia vazia...
de um certo ramo de rema de rima.

minha alma não sabe o que é lei
minha alma não conhece o Português
minha alma só vive as voltas
da vã censura e da fria solidez!...



07/06/2007

Essa coisa...



Que coisa seria essa?

(Essa?...)

Essa que me toma inteira e não me governa!
Me faltam palavras para descrevê-la...

(Então, melhor, talvez, não tê-la!)


Poderia ser a lua
Se branca, cheia, me levasse à rua.

Poderia ser pássaro encantado
Se, ao lado, figurasse colorido cenário.

Poderia ser a chuva
Se, nela, pousasse véu de brandura.

Poderia ser nota só
Se, notada, valesse um dó!

Poderia ser fogueira
Se, lenha, queimasse a ribanceira.

Poderia, poderia, poderia...

Há algo de urgência
Há algo de silêncio
( in-de-cên-cia )
Algo vão desmedido!

Poderia...

"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)