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16/04/2009

Afeição

Para Líria Porto.



Se ventos não me veem...
permita-me o divagar
o desfolhar de tão longínquas
asas em lume de promessas sutis
e vagas de corpos imperfeitos
afeitos por respostas
...




Outros ventos...
Canção de Hercília Fernandes & Marcus Vinícius
Produção e arranjos instrumentais: Marcus Vinícius
Vozes: Marcus Vinícius & Hercília Fernandes


VENTO


30/08/2008

Sinais do vento

Arte: Van Gogh


O interessante de tudo é que não houve contudos...
Aceitaram, enfim, a fatalidade na lei da gravidade e os sinais de alerta no trânsito. O interessante de tudo é que tinha de ser assim...
Havia de haver um ponto final às vírgulas embriagadas na comprida estrada.
- Então, por que a saudade?
Porque permanecem os sonhos e os naufrágios. Gotas de orvalho decorando cartas de amor.
O relógio em descompasso mapeando a geografia do corpo quando se perde a primeira hora no café da manhã.
Porque pulsa e toma força estranha: reclama, arranha e desembocam rios na aspereza e na esterilidade.
Porque se percebe, no abismo, um lugar habitável e não há como transpor extremidades no curso natural do vento.
Isso tudo é interessante e requer sofia.
Não para oferecer explicações às indeléveis expedições humanas na enciclopédia do tempo.
Mas para acalmar a ventania que assola as noites de tempestade...


29/08/2008

Orvalho (Etimologia poética)

diálogo entre textos.


Favor não me chamar:
ervilha
lentilha
milha
qualquer coisa terminada em ilha!

Gosto das mil miudezas...
Aprecio deveras poesia-ilha
Porém, my name is

Hercília!

Me chame orvalho.
Lágrimas aquecem o tom matinal
dispersam tempestades após labores e silêncios.

Me chame firmamento
Jardim em flor desbravando litoral
Rósea cor, purpurina, a-normal
Mas, favor não me chamar

ervilha
lentilha
milha
qualquer terminação em ilha

Meu nome é orvalho
natural-mente
Hercília!


By Hercília Fernandes



Hercília, doce-mente Cecília:


teu nome advém da etimologia poética:
gotas de verso que umedecem os lábios sufocados
pela necessidade de dizer, só-mente cantar,
versejar/velejar nos mares sem cais - não mais –
companheira de Cecília, a vidente cega
(como todos os poetas/profetas)
que iluminam nosso cotidiano, inteira-mente,
e sempre verdadeira-mente.


By Reinério Simões


(In: Comentário ao poema Normal-mente. Disponível em: http://fernandeshercilia.blogspot.com/2007/10/normal-mente.html)

25/08/2008

Folhetim


Não sei por que vem
Nem o porquê do porvir


Quisera não ir...

Apenas permitir a parada, não-parada, d’algum passo
Perdição no tempo e no tracejado d’alguma aquarela...


Quisera não mais ela...
anterior, secular, férrea


Folhetim n’algum
[encardido]
botequim


Celeiro do desvario
inoperância do vento.



30/04/2008

Pleito



Quem me recolhe as folhas negras e desbotadas
quando o vento insiste-me com os seus primeiros acordes marginais?

Quem me brota uma saudade inquieta no peito
e, no pleito, fécula levada me leva às margaridas e aos madrigais?

Quem me acolhe em seu ninho,
e, em moinhos, reserva-me às cochas e alcovas zonas escriturais?



Não sei...
Mas, ele bem sabe o que me apraz!...




Arte: Odilon Redon

08/04/2008

Pastora da noite

Ela era pastora da noite. Pastorava cães, estrelas..., e há-via-dores!

Pastorava sem nada pastorear, pois nada sabia senão o ar!

Porém, - de umas luas para cá - a noturna dera, na moita, a espreitar: anjo sem asa, pulo sem gato, rosa sem altar...

E fica, ali, fiando o tempo: ondas no mar, tricô no firmamento.

Passarinhando o des-contentamento: pastora da noite velando o vento!

Pastora tanto, tanto... que soluça o santo opulento!

— Ave Maria, moço!
que vilão mais desatento!...




Arte: Marc Chagall


08/03/2008

Vento



Vento leva um recado pra mim
Diz pro meu amor
O quanto sofro sozinha aqui.

Diz que estou chorando
Que venha cessar o meu pranto
Diz como é triste o meu canto
Porque perdi o meu encanto.

Leva pra ele o sabor das frutas
Que colhi no quintal
E o perfume das rosas
Sem beleza no rosal.

Na volta traga uma resposta
Me diga se ele volta...
Feliz batendo em minha porta.

Feliz batendo em minha porta
Feliz batendo em minha porta!...


(by Hercília Fernandes/Marcus Vinícius)




"Vento" é uma canção. A letra é de autoria de Hercília Fernandes e a melodia fora composta por Marcus Vinícius, músico e compositor alagoano, esposo da poetisa. Vento recentemente fora gravada pela banda "Perfume de Gardênia". Para apreciar o vídeo da canção na bela interpretação da banda natalense ver o YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=IR8ZRUSeBUE


01/02/2007

Somente às vezes


Às vezes penso que sou ar,
outras, água.
Horas bem devagar
presa a terra, e sem asas,
me ponho a voar.

Às vezes não quero voltar
E finjo ser o que não sou
Por que é triste ser navegador
sem barco certo e vento a favor.




Às vezes sou apenas nada
e, sem nada, sigo o meu caminho.
Às vezes sou uma triste toada
perdida na mata, solada, do sozinho.

Às vezes sou chuva
E me enfeito com adereços de flor.
Mas também sou seca
E me sirvo de vã beleza

nascida da dor.

Às vezes sou interrogação
ou previsível e água-mole e vulcão.
Segredo, unidade, segregação:
Pavio curto e leite derramado
no bolso escancarado de um velho blusão.


Às vezes, somente, às vezes...


13/01/2007

Vento epistolar
















Foi-se o vento
Foi-se a alegoria
Foi-se o fragmento
Foi-se a pasmaria.

Foi-se o mar
A tempestade e seus vendavais
Foi-se o luar
A maré cheia e os óculos assaz.

Fez-se o adeus
(Sem medo, sem coragem)
Fez-se como Prometeu
À rocha da humanidade.

Foi-se, fez-se...

com água, a fronte
com fogo, o olhar
com terra, o lume:
O vento epistolar.

(Foi-se, fez-se...)



"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)