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28/01/2009

Lembranças

Para Taninha Nascimento



Ele partiu.
Deixando suas vestes pelo caminho.
De quando meus olhos risonhos seguiam
E hoje, tristonhos, se sabem sozinhos.

Ele partiu.
E o meu peito é vale e é concha aberta
triturada em moinhos.
Mas a saudade é alvura em praia deserta
e alveja os meus escaninhos.



13/04/2008

Engano

Ela enganara-se! Nada havia de âmbar em seu posto olhar. Nada de estrelas na tarde. Nada de fabulações... Era possível tal engano?

Sim, era! Uma voz polida e confidente lhe respondera sem piedade. E prosseguia sua análise:

Minha amiga..., às vezes nos enganamos, sobretudo quando enxergamos a realidade conforme as nossas indeléveis vontades!...

Sim... Ela murmurava.

Não chore..., minha boa amiga, sempre haverá flores no final da tarde, mesmo que, lá estejam, para enfeitar os espinhos e acomodar a fadiga!... Não chore...

Sim...

(Mas, ela se enganara!...)




15/01/2008

Àgua morna


Andei triste: in-confesso!
Olhos vendados, despidos, in-tépidos.

Andei na contra-mão
e, na inquietude e turva solidão, me vi.

Andei encoberta por verdes espumas
e, na água morna, me desfiz.

Andei sufocada por azuis esperanças
e, à moda de criança, me despi.

Andei assaltando negras feras...
e, sem controvérsias, me rendi.

Andei por entre fossos, poços e róseas pétalas
e, sem critérios, parâmetros ou ruelas,
me absorvi.

Andei por entre imagens, cânticos e quimeras
e, às custas de pouca ou nenhuma métrica,
me senti:

entristecer...


23/09/2007

Gatos & Gatos



Nos telhados gatos miam
Nos telhados gatos choram
Nos telhados gatos silenciam
Nos telhados gatos pastoram.

Gatos nos telhados
vigiam a noite.

Com olhos verdes, oblongos,
apuram fatos:
- os gatos!

Com unhas afiadas
apanham ratos:
- os gatos!

Noite adentro,
teatro ecumênico,
com gatos e gatos
e, mais gatos!

Com destreza saltam os gatos:
pretos e pardos e amarelos.

Gatos sempre elegantes,
sorrateiros, léxicos.

Vigilantes da noite,
gatos pastores:
pés-de-chinelo
nos telhados da vida
es-tra-tos-fé-ri-cos.



Arte: Marc Chagall



"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)