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28/04/2008

Folhas secas


A dor que me alimenta
Fabrica sonhos em arrecifes
Tabuleiros em escombros
Estranhezas em acomodações.


A dor que me condensa
Enfeita flores em folhas secas
Desemboca rios na imóvel aspereza:
Fanatismos, brios e tempestades.


A dor que me suprime
Viola a minha existência
Acorda a minha demência
E me faz humana-mente-humana

Só mais uma vez...



Arte: Van Gogh





13/04/2008

Engano

Ela enganara-se! Nada havia de âmbar em seu posto olhar. Nada de estrelas na tarde. Nada de fabulações... Era possível tal engano?

— Sim, era! Uma voz polida e confidente lhe respondera sem piedade. E prosseguia sua análise:

— Minha amiga..., às vezes nos enganamos, sobretudo quando enxergamos a realidade conforme as nossas indeléveis vontades!...

— Sim... Ela murmurava.

— Não chore..., minha boa amiga, sempre haverá flores no final da tarde, mesmo que, lá estejam, para enfeitar os espinhos e acomodar a fadiga!... Não chore...

— Sim...

(Mas, ela se enganara!...)




14/02/2008

Intertextualidade profana

1 E pensar que...
2 já ouvi
3 vozes, velozes,
4 veladas
5 no silêncio.


6 Enfileirei
7 cabelos em tranças
8 frascos azuis
9 em vãos pensamentos.


10 Sufoquei
11 o verde na mata
12 o mar mofo-morto,
13 ainda morno,
14 em firmamento.


15 Rezei
16 verdades mentidas
17 auroras perdidas
18 em flores de cimento.


19 Enterrei
20 a dor sangrenta
21 na carne morena
22 em vales opulentos.


23 Renasci
24 na morte em vida
25 na chegada partida
26 em desfilamento.


27 E pensar que...
28 fiel cumpri,
29 ver-sa-tirizando,
30 os dez mandamentos!






Arte de Paolo Caliari. Disponível em: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/Veronese.html


19/06/2006

Renúncia


Cortarei as asas das borboletas
Para que fiquem imóveis.
Para que não pousem levianas,
Fazendo ciranda, em alheios móveis.

Cortarei as asas das borboletas
Para que não percam a cor e a beleza.
Para que não busquem néctar nas flores;
Para que não vivam por vãos amores.

Cortarei as asas das borboletas
Para que definhem até a morte.
Para que mudem o seu destino e a sua sorte.

Cortarei as asas das borboletas
Para que morram sentindo as dores
Pela ausência que jaz, o néctar das flores.



(Renúncia, in: Retrato de Helena, 2005, p. 70)


"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)