15/03/2009

Saltos e anéis


Passei os dias
sem consultar astros e anais
sem rever afáveis linhas
sem colar e degolar figurinhas
sem usar saltos e anéis.


Passei os dias
sem admirar postais
sem chover caleidoscópios
sem mentir que nem Pinóquio
sem lavar mãos e pés.


Passei os dias
alimentando pausas
nas entrelinhas: hi ber nan do...

(Hercília Fernandes, in: HF diante do espelho)


***


passei os dias
com saudade
de sua poesia


passei os dias
com cheiro de barro
com terra entre as unhas
sem nenhuma grandiloqüência
sem nenhum excesso


passei os dias
entre sorrisos mútuos
a experimentar os lábios
nas palavras iorubas


passei as noites
a contar estrelinhas
a descobrir reticências
a destituir pontos finais


passei aqui
para me saciar
neste salto
em que anelo
o meu olhar


14/03/2009

Hibernação


É inverno.
A chuva cai servil sem trégua
enquanto meu peito solitário hiberna
o gosto estatutário das ruínas,
das quimeras...

(Hercilia Fernandes, in: HF diante do espelho)


***

hibernas?
a placidez de um
o coração como cisterna


se hibernas
cabeça, tronco,
braços e pernas
hoje não te levam
para fora da caverna...


Arte disponível no Google Imagens.

08/03/2009

Renunciação


Vislumbro dois navios:
um navio sobre um oceano sem direção
um navio sob águas turvas e profundas
onde, acima, levitam plumas
em agitação.

Vislumbro, debalde, a âncora
o porto, o cais... e abraço
a renunciação.


Imagem disponível no Google Imagens.


06/03/2009

Arranjo


Meu eu feminino
é concha entreaberta.

Ninho de possibilidades
onde se interpõem lépidas
promessas.

Meu eu feminino
transpõe animus...

tem pressa!


Arte: Autoria desconhecida (Google Imagens).

04/03/2009

Caminho indireto




Talvez eu devesse ter um romance
tomar banho de sol quando
tudo é inverno.

Talvez eu devesse te levar a sério
sair da rotina, romper o pacto
com o tédio.

Talvez eu devesse aproveitar o dia
e acolher a sofia de uma nova
cor e idéia.

Talvez eu devesse ser lua adversa
ser mais ato e muito menos
conversa.

Talvez eu devesse ser manifesta
e [te] mostrar de uma só vez:

o caminho que vai, indireto,
das Índias às minhas cobertas!...




Nota:

O poeta Fernando Cisco Zappa nos brindou com uma belíssima declamação do poema Caminho Indireto. Para ouvir o texto, clique no play da caixa de áudio DivShare.

02/03/2009

Luto


Nada há para dizer-lhes...
Talvez, a constatação de que as minhas asas
foram podadas, estraçalhadas durante o voo,
o desvio, o refluxo...
A minha melhor porção encontra-se enferma
por isso me ponho negra, jovem viúva
em fria mesa.



Cavalo alado


Fiquei triste!
De repente todo manto azul do céu
desabou sobre mim.
Ao tocar minha pele, aquele azul-celeste,
claro feito neve, coloriu-me de carmim.

Claro! Eu não dei por mim.
Precisava mais de poesia:
escura, difusa, tardia
faria luz
à minha nostalgia.

Claro! Eu desejei o cetim.
Com todos os seus festins.
Eu precisava demais de folia
para emoldurar a minha melancolia.

Claro! Tudo foi só um sonho
Um engano desenganado:
claro - como é o orvalho,
escuro - como é o pecado.

Claro... O sonho se foi num cavalo alado!



Do livro Retrato de Helena.
(FERNANDES, Hercília, 2005, p. 47).

"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)