09/10/2007

Normal-mente



É normal que eu tenha sonhos
que eu queira voar sem asa delta
que eu me despedace por amor
e mantenha portas sempre abertas.

É normal que eu faça juras secretas
que eu me esforce por ganhar
que eu vença o medo de perder
que eu cante:
madrugada até o entardecer!

É normal que eu chore:
des-con-so-la-da-mente

que eu ria
com-pul-si-va-mente

que eu grite
in-tem-pes-ti-va-mente

que eu ame
tão dul-cís-si-ma (mente)

É normal,
tão nor-mal-mente...

07/10/2007

Um poema oportuno



Você condenou os meus versos (a)
Chamou minha rima de pobre (b)
E a metáfora de sem nexo. (a)

Você me sugeriu velhos moldes (b)
Rimas cruzadas, encadeadas (c)
Em decassílabos nobres. (b)

Você me indicou a poesia ilustrada (c)
Achou meus poemas difusos, confusos (d)
E a minha poética vanguarda. (c)

Você me aconselhou um poema oportuno (d)
Como posso? Sou apenas um vagabundo (d)
Que pesca versos a nadar no novo mundo. (d)



FERNANDES, Hercília. In: Retrato de Helena, 2005. Ilustração: Custódio Jacinto.

26/09/2007

Indefinição

Não sei bem ainda quem sou.
Quando quero saber
tento ler os meus versos...

Mas nem sempre
eles me dizem muito.
Muito menos
o que quero!

Então recomeço
tudo de novo
(ou de velho)
No mesmo ponto
no ponto ZERO!


Imagem: Rosto de mulher em aquarela 42 x 30cm, 1998. Disponível em: www.xenia.com.br/gallery/aqua/aquarela15.htm

23/09/2007

Gatos & Gatos



Nos telhados gatos miam
Nos telhados gatos choram
Nos telhados gatos silenciam
Nos telhados gatos pastoram.

Gatos nos telhados
vigiam a noite.

Com olhos verdes, oblongos,
apuram fatos:
- os gatos!

Com unhas afiadas
apanham ratos:
- os gatos!

Noite adentro,
teatro ecumênico,
com gatos e gatos
e, mais gatos!

Com destreza saltam os gatos:
pretos e pardos e amarelos.

Gatos sempre elegantes,
sorrateiros, léxicos.

Vigilantes da noite,
gatos pastores:
pés-de-chinelo
nos telhados da vida
es-tra-tos-fé-ri-cos.



Arte: Marc Chagall



08/09/2007

Crendice


Me dê um gole do seu veneno
para eu me embriagar na taberna
para eu enganar a cobra cega
para eu me secar no sereno,
ou, na sua, quente, adega.

Me dê um gole do seu tédio
para eu poder - fingir - cantar vitória
para eu poder - perder - sair do sério
(e dar o fora...)
para eu ceder à sua honra
e à sua glória.

Me dê um gole de sua rotina
porque o Mal não me convence,
nem me contamina.
Nem a sua bebida letal
Nem a fadiga, a pasmaria, ou o caos
Nem a sua latente, devagar, retina.

Me dê um gole de sua tolice
para eu cruzar pontes, fundar diques.
Extrapolar normas, espantar crendices.
Para eu chover na fogueira
feito gente normal.
Para eu ficar à toa,
mansinha, naturalmente bela,
no mundo, perfeitamente, irreal.

Me dê só um gole...
Se não me fizer bem,
também, não lhe fará mal!

Entradas e Corredores



Hoje sonhei com você
Ou melhor,
sonhei que lhe procurava
entre entradas e corredores:
longos degraus,
e, portas sempre fechadas.

Seu nome... numa das portas
aparecia em letras garrafais
Mas mesmo lá...
Eu sabia: - não podia bater
muito menos entrar!

Hoje sonhei com você
cenas bem reais:

[fantasmas
nos corredores]

[espinhos
nos varais]

[cravos e flores
nos arvoredos]

[pássaros e insetos
nos portais]

Mas, você nem sabe...
o mal que isso me faz!




27/08/2007

Par de tamancos


Às vezes sinto um cansaço...
De que me valem tamanhos passos?

Eu só queria uma noite bem dormida:
Flores na varanda, rede estendida
Escalda pés, cara fresca, tarde limpa!

Eu só queria uma casa no campo:
(sem livros, discos ou estantes...)
Um cobertor de estrelas
Chinelos azuis verdejantes
E um bom par de tamancos!

Eu só queria...
um bom e velho par de tamancos!



"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)