09/11/2014

Pudera...

Arte: George Braque


Pudera fundir-me, a língua, à tela difusa
Dotar-me das histórias que não têm fim!
Despir-me da neve que à paixão reclusa,
Que crespe as cordas do meu bandolim.

Pudera profanar a tez, − textura marfim.
Suprimir do enleio a desventura de musa
Do devaneio que ateia, ora me parafusa
Que sapateia ao que não, ainda que sim.

Pudera executar balada nobre e incisiva:
Canção que lasciva tua distinta memória
− E furtiva dissabores da razão seletiva.

Pudera ceder às flores que amas ilusória,
Render-me aos fulgores da cama evasiva:
Que trama, saliva − proclamas em glória.



h.f.



*Soneto iniciado em jun. de 2014.

16/10/2014

à margem


que as águas rolem
acalantem o silêncio
das pedras
à margem
das concordâncias
e burburinhos


h.f.
16 out./2014


11/09/2014

(re)nascimento


o castelo
esplendoroso
um dia
desmoronará

e, das ruínas,
se erguerá

um outro povo


h.f.
11 set./2014


22/08/2014

Desejos infantis


A cada dia me torno mais estranha. A cada dia já não reconheço a minha face adormecida na amplidão. A cada dia sinto-me menos fluída; e me nego, um pouco mais, à contemplação. A cada dia me desinteresso por coisas sensatas. E por coisas não sérias também! A cada dia apresento menos tolerância; para não dizer: desdém! A cada dia choro em meu silêncio. E clamo uma nova cor e ideia. Contrariamente, tarda-me chegar a primavera. E, com ela, a luz e a chama de uma vela. Assim os meus dias vão passando: sem serenidade, dormência ou engano. Assim os meus dias vão perdurando... (enquanto choro em meu silêncio), os meus desejos infantis e secretos planos.


h.f.
1 ago./2007



*Texto revisitado.

rendição


lua
se eu fosse
rua

caía na lábia
sua

antes que a Via-Láctea
evolua


h.f.
21 ago./2014


05/08/2014

In_variável

a Marcus Vinicius, companheiro de vida.


Não é porque a noite se mostra negra que esqueço o brilho das estrelas. Não é por não dispor de chaminé que desacredito em papai Noel. Não é porque o Sol se enfada, se deita, que anuncio novo dia. Não é porque a lua se apresenta gueixa, que afago cometas e vaga-lumes. Não é por essas e outras coisas que amo esse mesmo outro homem.



Esqueço o brilho das estrelas porque a noite se mostra negra. Desacredito em papai Noel por não dispor de chaminé. Anuncio novo dia porque o Sol se enfada, se deita. Afago cometas e vaga-lumes porque a lua se apresenta gueixa. Amo esse mesmo outro homem por essas e outras coisas.




*Texto reeditado, a versão original é de 27 ago./2009. 



16/07/2014

O ESPELHO


– reflexo de si mesmo,
que inscreve o outro em mim
dia a dia
noite a noite;
madrugadas a esmo,
enfim –

reluz
embaça

esvoaça trovas e trovoadas
às palavras que, íntimas, se reconhecem
ditas
ouvidas
dilaceradas...

porque urgência é reconhecer-me

face a face
verbo a verbo
do verso ao ato, – ao sexo

em sua língua
tato
.......................reflexo


mas a contingência arrefece também a miragem...
o objeto, a sensação; a palavra adejante ao espírito,

– à carne

que se inscreve tardia e delirante no cio

possa eu luzir no espelho
chama vela
pavio?

inverno
que é simultaneamente estio?

primavera

de
.......rio
..........som
..............brio?

beleza
que se anela à linguagem do corpo
febril?


possa eu a porção (im)pronunciável do vazio?...




h.f.
14 mai./2014




"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)