25/08/2013

a sinfonia, o mar


a cada dia morre-se

um pouco mais

infinitos acordes

volvem a sinfonia

o mar


ficarão as vísceras


os refúgios da alma

em que tu me devoras

despe-me


sem alcançar-me



hercília fernandes,

02 out. 2010



*Arte: Ricardo Paula, "O abraço do mar I".



24/08/2013

não, você não entende...


será que algum dia

foi capaz de compreender?

nunca desejou salvar-se?


livrar-se da náufraga

entregue às nuvens do pensamento?

da água turva que tece

rios, correntezas de lamento?

talvez seu mundo 

seja um arco a contento...
mas aqui, outro lado da fotografia, 
não há nenhum pote de mel
em que possa deleitar a sua íris

a realidade é cinza

a espera é cinza
e eu estou cinza


h.f.

23 ago. 2013



*Poema escrito enquanto ouvia James Blunt, "Goodbye my lover".


  

22/08/2013

nada mais importa

nem mesmo
o cravo
/ a rosa


h.f.

21 ago. 2013


[...]


Não, ela não possuía qualquer direito... nem liberdade, nem expressão, nem jeito. Sentia. "Tenho pressa porque o sentimento alargar-me na fonte. Abre-me o amor entrefrestas e eu já não sei o que fazer para contê-lo, escondê-lo nas especiarias dos montes". Urgência é a posse, consentida, da sua geografia.


______________________________...



CECILIANA

arrancarei
a feiúra rósea
d’entro de mim
como quem
remove
erva daninha
do jardim

depois,
com olhos
perplexos
por ti,
tornar-me-ei
rocha

"tão parada e fria e morta”



hfernandes,
27/29 out. 2012




21/08/2013

Same mistake





"I'm not calling for a second chance,
I'm screaming at the top of my voice,
Give me reason, but don't give me choice,
Cause I'll just make the same mistake again..."



20/08/2013

hoje, ontem...


o tom era de leveza

- de graça
o sentido? tão único...

(há dias, ardia-lhe tal pronúncia)







por sonhar demais
foi que grafei
o teu nome na areia

nosso amor é livre...

se não me ateias,
é porque mares me fazem
ora medusa ora sereia*


hercília fernandes,
hoje/ontem



*"Das Coisas Dispersas No Mar", poema publicado no livro "Nós Em Miúdos". Editora Patuá, 2013.


19/08/2013

jardim em cinzas


a minha vida é um filme:
imagem
passagem na janela

a lente que filma,

quase sempre, é aquarela
tão vibrante quanto um sonho
de Monet

mas também é asa disforme


ponte

passarela

jardim em cinzas



h.f.

19 ago. 2013



*Arte: René Magritte, "A condição humana" (1933).



18/08/2013

Carta ao amigo


Caro amigo,
minhas saudações.


Hoje tenho tomado consciência que não tenho, apenas, alguns poucos anos de vida, mas, provavelmente, quatro séculos de existência.
Muitos pensamentos têm-me, insistentemente, afligido o espírito. Alguns passam à noite a rodear-me, envolvendo-me; e requerem, de mim, explicações às coisas que talvez estejam além da minha compreensão. A verdade é que tenho buscado nos textos literários, a priori nos poéticos, possíveis esclarecimentos para as minhas angústias.
Tenho refletido muito sobre o homem e o seu ideal de felicidade, porque, assim, poderei compreender a mim mesma e aos valores que, historicamente, têm me acompanhado. Penso que muitas das minhas aflições decorrem dos ideais dos novos homens; exigindo de mim uma certa racionalidade para examinar os meus próprios sentimentos. A bem da verdade, é que tenho buscado esse entendimento a partir da reflexão do pensamento Iluminista que, por sua vez, tivera suas bases filosóficas importadas da Renascença:
– Como posso, meu senhor, confiar-te os mais sinceros sentimentos, sem ultrajar a nossa sã e fecunda relação? Tenho por ti uma admiração quase que divinal, porque não dizer paternal! Entretanto, é verossímil que os meus olhos já não te vêem com o mesmo olhar. A tua imagem, antes tão fria e distante e, terrivelmente, vertical, tem-se modificado, gradativamente, à luz da inteligência humana.
Contudo, meu amigo, em meio a tantos pensamentos, livros e enciclopédias, sinto-me, ainda, extremamente bucólica. Um forte sentimento idílico tem-me contagiado, remetendo-me a um passado distante, cujos homens podiam se deleitar à natureza. A bem da razão, resigno-me a imaginar, no plano da fantasia, o homem em seu estado natural, não corrompido pelos valores da civilidade. E, nesse plano, posso visualizá-lo sem que minha alma se corrompa pela artificialidade da vida mundana.
O fato, meu senhor, é que não pertenço a este tempo, mas posso-me retroceder para que minh’alma se una a tua. No plano da fantasia, tudo posso, tudo me é permitido sonhar. Posso ver-te por entre as nuvens dos meus pensamentos, posso sentir a tua presença, amar-te, adorar-te. Mas a cruel realidade, com todas as suas frívolas engenharias, afasta-nos. A contar pelo tic-tac do relógio que, insistentemente, alerta-nos a hora, pelos rigores dos ofícios, pelas exigências comuns à vida moderna.
É, meu querido, uma gama de valores diplomáticos permeia a nossa cortês relação, restringindo-nos a qualquer possibilidade de realização afetiva. Falta-nos a poesia, falta-nos o olhar sensível, não mascarado pela racionalidade científica, que submete o poeta a refugiar-se aos campos sob a condição de tornar o Real em Belo.
Novamente confesso-te que, embora meu espírito tenha nascido em meados dos “Setecentos”, a esse tempo não pertenço! Caso eu o pertencesse, não me acompanharia, hoje, tal nostalgia. Meus sentimentos se elevariam comovidos com a sensatez das Suas ilustrações poéticas; e o meu espírito não se afligiria mediante a contida emotividade de Suas liras musicais.
Não desejo mais ser a Sua Marília, não quero-me imortalizada por Seus versos, a Sua expressão de afeto tem-me sido dissimulada e oportunista. Hoje, não desejo ser a musa de Seus poemas galantes e perfeitos, pois sei que são vãs, são-lhes refúgios para as Suas copiosas e dignas responsabilidades civis.
Quero-lhe com todos os artifícios e vícios comuns a nossa civilidade; com todas as angustias d’alma. Quero-lhe instintivo, sonoro e difuso; insano, inquieto e reflexivo. Não almejo-lhe ponderado, irremediavelmente, debelado e ilustrado. Todavia, não desejo-lhe animal, rude aos modos, e ausente de significância.
Quero-lhe Senhor dos Seus pastos, entretanto, entregue, intensamente em meus braços.


Carinhosamente,
Helena.




*Carta da personagem Helena ao amigo Seminarista. In: Retrato de Helena, 2005, p. 57-59. 

15/08/2013

alça_pão


e o meu peito

ser_tão
é rio
alça_pão
de saudades

até do que não...



h.f.

9 ago. 2013

14/08/2013

11/08/2013

desprendimento


vieram-me alguns versos,
pássaros que vêm e vão

o que me disseram?

confesso, apenas guardei
a sensação!

versos são como pássaros

desprendem-se das penas
não das asas que fazem
livres as mãos


hfernandes,

11 ago. 2013




"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)