28/05/2011

retrato [impresso]



Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio [tão] amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Meireles



Águas alargam-se...
e eu emoldurada à última paisagem, evasão, sentido

Desejava um sol noturno, um verso original,
mas quando a emoção é imensa, ínfimas são as palavras

Mal sinto a tua vastidão...
pois necessito-me mãos, dedos, lábios, movendo-me o espírito

Já não escondo sentimentos, também não os vivos...

Desalinhados são meus passos
Desafinadas agem-me as ondas

Haverá, no alto, música?...

No mar, ela entoa-me desconhecida
E eu alinho/desalinho raios então impressos/dispersos em mim


Hercília Fernandes



*Foto feita ontem, diante do espelho...
"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)