21/01/2008

Contador de estrelas



Tem dias em que a saudade grita assustadoramente. Basta a percepção de uma palavra lançada ao vento, a memória de uma paisagem idílica, o sabor de um beijo rápido e deveras às escondidas...

Aí, surge a ansiedade e, com ela, as prováveis suposições: poderia ter sido assim, ali, assado... em um canavial logo, aqui, ao lado; poderia ter sido tempo bom, bem gasto.

Poderia!...

Ah..., poderiam ter sido tantas coisas! Como poderia ter sido absolutamente nada! (Quem irá duvidar das coisas do destino!?...).

Às vezes, está tudo tão claro, tão ao livre alcance..., no entanto, perde-se tanto tempo - que é, diga-se de passagem, bem caro! -, buscando revitalizar velhas lembranças... (estampas infrutíferas de verificação!).

Exemplificando, sem querer parecer piegas, mas já o sendo! Se fôssemos contar a quantidade de estrelas existentes no Universo, o que aconteceria? A vida provavelmente a deriva passaria!...

Ah..., eu que vivo fazendo perguntas, cansei de buscar respostas. A pergunta me lança ao futuro enquanto que as respostas fixam-me no presente. E, como ele, vem à tona: o porão, os ratos e os gestos subservientes...

Isso tudo significa que:

– Posso até contar estrelas..., mas não sou demente!







19/01/2008

altos e baixos



O amor é assim:

altos e baixos
entradas e corredores
curvas e retas.

Areia, luz, paisagens secretas.


O amor...

Ah... Ele, não presta!

17/01/2008

Apologia à feiticeira menina


"Se eu vivesse sem a poesia,
e ela sem mim,
o mundo seria como um relógio,
contando as horas para o fim" (Bina Goldrajch).


Não teme o amor, não afasta dor. Sacode dogmas, fere rotinas. Retira das palavras sua cor, vontade, melanina. Assim é a feiticeira menina, assim é a poetisa:


Eu só queria traduzir em versos
essa inquietação
que sua presença
(não-presente)
me causa.

Queria traduzir pra tua língua
e te passar em segredo
esses versos
inquietos,
esse remelexo.

Eu te amo.


Seu sorriso é uma carícia, sua dor intensa e temporária. Seu relógio, o tempo do vôo, da brevidade, da pausa... Atemporal como chama, vela, fumaça:


Maré imunda,
encardida,
de infortúnios –
onde eu navego
e navego,
sem a nenhum lugar
chegar.

Eita, maré de azar.


Sentimento em ebulição, alma feminina. Exagero, imagética, reflexão. Nada escapa aos olhos da menina, nada é indiferente a sua voz singular, afetuosa, prima:


Um dia conheci uma menina que olhava
Ela olhava e olhava
E não parava de olhar
Para qualquer um ou qualquer coisa
Ela parecia não se importar

Olhava o céu

Olhava o chão

Ela olharia para você
Durante horas
E você nem saberia o porquê
Ela simplesmente olhava

Mas um dia
Após tanto olhar
Esgotou-se
Fechou os olhos
E passou a sonhar.


Liberdade formando polidez. Sensualidade ensaiando uma nova maneira: rarefeita! Bordões, óculos, jóias, clichês... renovam seu metro, sua fábula, sua rima:


“Me joga na parede, mas não me chama de lagartixa, não.
Por favor”.

[...]

“- Ave Maria, cheia de graça...
... (cala a boca e morre, desgraçado)”.


Simplicidade, doçura, humor infantil. Cálida e suave como as lembranças da joaninha; aquela que, saída dos livros de bolinhas, veio bailar em sua farta cozinha:


“A primeira vez que eu vi uma joaninha eu já tinha 11 anos. Ela apareceu na toalha da mesa da cozinha da minha antiga casa [...]. Eu nunca tinha visto uma joaninha, somente em livrinhos infantis. A sensação foi tão inebriante que meus olhos se encheram de lágrimas. Foi como se um personagem de história infantil tivesse pulado para fora das páginas do livro. Foi como ver um artista de televisão ao vivo. [...] Foi um momento inesquecível”.

Assim é a feiticeira menina, assim é Bina...



À poetisa Bina Goldrajch,
Uma expressão de afeto in apologia.



Blog da poetisa:
http://degluticaodepensamentos.blogspot.com

15/01/2008

Àgua morna


Andei triste: in-confesso!
Olhos vendados, despidos, in-tépidos.

Andei na contra-mão
e, na inquietude e turva solidão, me vi.

Andei encoberta por verdes espumas
e, na água morna, me desfiz.

Andei sufocada por azuis esperanças
e, à moda de criança, me despi.

Andei assaltando negras feras...
e, sem controvérsias, me rendi.

Andei por entre fossos, poços e róseas pétalas
e, sem critérios, parâmetros ou ruelas,
me absorvi.

Andei por entre imagens, cânticos e quimeras
e, às custas de pouca ou nenhuma métrica,
me senti:

entristecer...


"O sonhador, em seu devaneio, não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo."

(Gaston Bachelard)